O peso do nome na marca do pênalti
Análise · Marcos Tibúrcio Há um silêncio particular que antecede a cobrança de um pênalti em uma final.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um silêncio particular que antecede a cobrança de um pênalti em uma final. Não é a ausência de som, mas o seu contrário: é o barulho da expectativa, um zumbido feito de rezas e pragas que preenche o estádio. Na Ressacada, neste sábado, o silêncio pesava um pouco mais. Pesava sobre os ombros de um garoto de 15 anos vestindo a camisa 10 do Avaí. Um garoto chamado Arthur Santos.
O nome, no futebol, é destino ou fardo. Para o filho de André Santos — aquele lateral que vestiu as camisas de Figueirense, Flamengo, Arsenal e da Seleção —, o nome é uma sombra que o persegue desde a primeira vez que chutou uma bola no futsal de Florianópolis. Cada drible é comparado, cada passe é medido contra a régua de uma carreira que já aconteceu. É uma herança que não vem com manual de instruções.
O cenário era um drama em dois atos. O Avaí havia vencido o primeiro jogo contra o Barra por 4 a 2, fora de casa, com um gol de Arthur. Parecia resolvido. Mas o futebol despreza o que parece resolvido. Em seu próprio campo, o time azurra perdia por 2 a 1. A vantagem construída na ida se esfarelava, e o agregado, perigosamente, apontava 5 a 4. Um gol do Barra e o título escaparia pelo nervosismo, pela complacência, por aquele veneno que ataca os times que se julgam campeões antes da hora.
O herdeiro e a bola
Foi quando o pênalti surgiu. Não era apenas uma chance de gol. Era um roteiro. O camisa 10, o filho do ex-jogador famoso, a bola na marca da cal. Para um menino, a onze metros do goleiro, o gol pode parecer um continente de distância. Ali, não há sobrenome que ajude. A bola é um mundo redondo e solitário, e a responsabilidade é toda sua.
Arthur Santos ajeitou a bola. E cobrou. O gol não deu a vitória na partida — o Barra, valente, segurou o 2 a 1 —, mas deu o título. Deu a taça. Nas redes sociais, o pai, orgulhoso, escreveu o que a arquibancada já intuía: "Gosta de decidir na final". A frase é um elogio, mas também uma profecia. Um carimbo.
A história de Arthur está apenas começando, mas sua primeira página já está escrita com a tinta dos momentos que definem. Ele não é mais apenas o "filho de André Santos". É o garoto que, diante do silêncio pesado de uma final, não tremeu. Quantos herdeiros, com muito mais holofotes, já se perderam nessa mesma caminhada da marca do pênalti até a bola?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge