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O peso de 210 milhões que Casemiro carregou sozinho

Análise · Marcos Tibúrcio Há frases que só existem no futebol. "Desapontamos mais de 210 milhões de pessoas" é uma delas.

O peso de 210 milhões que Casemiro carregou sozinho
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Há frases que só existem no futebol. "Desapontamos mais de 210 milhões de pessoas" é uma delas. Casemiro a disse chorando, depois que a Noruega encerrou a caminhada do Brasil nesta Copa do Mundo. O número é exato, a dor é real, e o peso — esse é o problema antigo do futebol brasileiro.

Nenhum outro esporte coloca seus atletas diante de uma contabilidade como essa. Nenhum tenista chora pedindo desculpas a uma nação inteira. Nenhum nadador sai da piscina com o rosto refeito de culpa coletiva. O futebol brasileiro, sim. Ele exige isso de seus jogadores porque foi construído assim — sobre promessa, sobre expectativa, sobre uma mitologia que precisa de sacrifício para se sustentar.

Casemiro não é jovem. É um homem de trinta e tantos anos que passou a vida inteira carregando a camisa amarela com a seriedade de quem sabe o que ela pesa. Um volante que nunca foi glamoroso, nunca foi o favorito dos cartazes, mas sempre foi o que ficava de pé quando o jogo ficava feio. Ver esse homem chorando e citando 210 milhões não é cena de derrota esportiva. É retrato de uma geração que carregou mais do que deveria.

A Noruega não é adversária que se vence por força de tradição. Tem estrutura, tem método, tem Haaland — e tem a frieza escandinava de quem joga futebol sem precisar de drama para se motivar. O contraste com o Brasil é quase literário: de um lado, uma seleção que joga carregando o peso emocional de um país inteiro; do outro, uma equipe que parece jogar só o que está diante dela, noventa minutos de cada vez.

O problema não é perder para a Noruega. O problema é que essa derrota vai ser lida, nos próximos meses, como uma crise civilizatória — e não como o resultado de uma disputa entre duas seleções em campo.

O Brasil foi eliminado. Isso acontece. Aconteceu em 1966, aconteceu em 1982, aconteceu em noites que viraram sinônimos de dor nacional. O que muda, Copa a Copa, não é a eliminação em si — é o que fazemos com ela. Se o choro de Casemiro virar penitência pública, se os 210 milhões virarem argumento para destruir jogadores em vez de construir projeto, então a derrota para a Noruega será o menor dos problemas.

O maior será o de sempre: confundir luto com análise, e sentimento com diagnóstico.

Marcos Tibúrcio — Chefia de Esporte, Xaplin

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil é eliminado pela Noruega em competição internacional

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL