O papel assinado e o silêncio de Washington
Análise · Clara Verdi Há uma assimetria reveladora no fato de que o Ministério das Relações Exteriores iraniano declarou o acordo já em vigor…
Análise · Clara Verdi
Há uma assimetria reveladora no fato de que o Ministério das Relações Exteriores iraniano declarou o acordo já em vigor enquanto Washington ainda não havia confirmado nada. Dois lados, um papel, versões que já divergem antes de a tinta secar. Isso não é detalhe protocolar. É o primeiro sinal do terreno sobre o qual se pretende construir algo chamado de paz.
O que se sabe, por ora, é pouco e é muito: Trump e o presidente do Irã assinaram um acordo preliminar que abre um período de 60 dias de negociações rumo a um entendimento definitivo. Não é um tratado. É uma promessa de negociar uma promessa. A história diplomática do Oriente Médio está cheia de documentos desse tipo — alguns que viraram algo, muitos que viraram papel.
O contexto importa. O Irã chega a essa mesa depois de anos de sanções que corroeram sua economia, de uma moeda que perdeu valor de forma catastrófica, de uma população que foi às ruas repetidas vezes contra o próprio regime. Trump chega com a lógica transacional que já aplicou ao conflito em Gaza — a ideia de que qualquer desfecho negociado, por mais frágil, pode ser vendido como vitória. Os dois líderes têm, cada um à sua maneira, razões domésticas para querer uma fotografia de paz.
O que essa fotografia não mostra é o conjunto de questões que um acordo definitivo precisaria resolver: o programa nuclear iraniano, o papel de Teerã no financiamento de grupos armados no Líbano, no Iêmen, na Síria, em Gaza. Sessenta dias é um prazo que não comporta essa arquitetura. Pode comportar, no entanto, a suspensão de hostilidades imediatas — o que, para quem está morrendo, não é pouca coisa.
A Europa observa essa movimentação com o desconforto de quem foi sistematicamente excluído do tabuleiro. Quando o acordo nuclear de 2015 — o JCPOA — foi negociado, Berlim, Paris e Londres estavam na mesa. Desta vez, o movimento é bilateral, americano-iraniano, e a UE aparece, quando muito, como expectadora.
Isso tem consequências. A Europa é o principal parceiro comercial que o Irã mira em qualquer cenário de abertura econômica. Mas sem assento na negociação, o continente corre o risco de ser chamado apenas para assinar a conta — seja para financiar a reconstrução regional, seja para absorver as pressões migratórias que qualquer rearranjo de poder no Oriente Médio tende a produzir nas suas fronteiras sul.
Sessenta dias. O prazo começa a correr sobre um acordo que um lado já declarou vigente e o outro ainda não confirmou. É exatamente o tipo de ambiguidade que, na diplomacia do Oriente Médio, costuma ser menos um ponto de partida do que um campo minado com boa iluminação.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Trump e Irã assinam acordo preliminar de paz no Oriente Médio
Fontes: g1 · CNN Brasil