O país do alerta laranja
Análise · Luciano Aragão Enquanto uma ponta do Brasil se prepara para ventos de 100 quilômetros por hora, a outra recebe um alerta de perigo…
Análise · Luciano Aragão
Enquanto uma ponta do Brasil se prepara para ventos de 100 quilômetros por hora, a outra recebe um alerta de perigo por baixa umidade do ar. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), um órgão do governo federal, oficializa nesta quarta-feira a existência de dois países dentro de um. Não é uma metáfora. É um boletim técnico.
No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o alerta é laranja para temporais. Em Porto Alegre, a mínima prevista é de 12°C. No mesmo instante, a mais de três mil quilômetros dali, em Palmas, os termômetros devem marcar 38°C. Na capital do Tocantins e em todo o estado de Goiás, no Distrito Federal, no leste de Mato Grosso e em porções de outros cinco estados, o mesmo alerta laranja não se refere à água que cai, mas à que falta no ar.
A política, como o clima, detesta o vácuo e se move por pressão. Um governo é forçado a responder a emergências que, em Brasília, chegam como demandas por recursos, decretos e a presença de ministros. A dificuldade é quando as emergências são opostas e simultâneas. O aparato estatal que lida com o excesso de chuva no Sul é o mesmo que precisa se preocupar com a secura do Centro-Oeste, onde o risco de incêndios cresce com o ar rarefeito.
Não há como construir uma narrativa única, uma mensagem de coesão nacional, quando a experiência física dos cidadãos é tão radicalmente distinta. Para o gaúcho que vê o vento castigar a janela, um discurso sobre combate à estiagem soa como notícia de um país estrangeiro. Para o goiano com a garganta seca, a mobilização por causa de uma frente fria parece um problema distante. Cada crise exige uma resposta específica, um orçamento, uma articulação política. E atenção, o recurso mais escasso na capital federal.
Os boletins do Inmet desenham um mapa que nenhum marqueteiro consegue unificar. O Brasil não está apenas dividido. Ele opera em climas diferentes, com urgências que não dialogam. E o governo, no centro geográfico da secura, precisa encontrar uma resposta que sirva para quem treme de frio e para quem não consegue respirar.
Qual das duas sirenes se ouve mais alto na Praça dos Três Poderes?
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil