O otimismo de quem já esteve lá
Análise · Marcos Tibúrcio A palavra veio de longe. Não do banco de reservas, muito menos da sala de imprensa de um estádio qualquer desta Copa.
Análise · Marcos Tibúrcio
A palavra veio de longe. Não do banco de reservas, muito menos da sala de imprensa de um estádio qualquer desta Copa. Veio de quem pisou na poeira antes do gramado existir. Márcia Tafarel, meia da Seleção Brasileira na estreia do Mundial feminino, em 1991, cravou que a equipe de Arthur Elias tem fôlego para ir à final em 2027. Uma aposta. Ou talvez uma profecia de quem já viu o filme todo, desde o negativo.
O que espanta não é a confiança — esta, o brasileiro tem de sobra, por ofício. O que espanta é o argumento. Tafarel, que há 22 anos vive e respira futebol nos Estados Unidos, a Meca da modalidade, não se ampara em planilhas ou no ranking da Fifa. Ela compara. Diz que o potencial de sucesso das mulheres, hoje, é maior que o dos homens, eliminados sem glória nestas oitavas de final de 2026. É uma inversão de hierarquias que, até ontem, soaria a delírio.
A herança e a promessa
O sobrenome Tafarel, no imaginário do nosso futebol, remete a um goleiro de fala mansa e mãos milagrosas. A linhagem, porém, tem outra vertente, uma que desbravou o campo quando jogar bola era quase um ato de insubordinação. Márcia traz essa história na chuteira. E é por conhecer o ponto de partida — o amadorismo, a falta de tudo — que sua avaliação ganha peso de sentença.
Ela fala em “pessoas abnegadas”. Não fala em CBF, em planejamento estratégico ou em ciclos de Copa. Fala em gente. Em quem se dedica para que a mulher “cresça e evolua no futebol”. É o reconhecimento de que a força desta Seleção não brotou do investimento recente, ainda que ele exista. Ela foi semeada no sacrifício, irrigada pela teimosia de pioneiras como ela mesma. O vice-campeonato de 2007 e a prata olímpica em Paris não foram acidentes, foram os primeiros frutos de uma lavoura antiga.
Enquanto a equipe masculina parece buscar um rumo, um fiapo de identidade perdida, a feminina encontrou o seu. É um time que joga com a memória do que não teve e com a urgência de quem precisa provar seu valor a cada partida. Tafarel, de sua perspectiva, enxerga o óbvio que nos escapa: o drama constrói caráter. E esta Seleção tem drama de sobra para escrever uma final em casa.
Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge