Lorena comanda ofício solitário no futebol inglês
Lorena, única mulher em sua função, compartilha desafios e conquistas em um papel essencial no futebol britânico.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um ofício no futebol que se pratica na mais absoluta solidão. O goleiro veste luvas não apenas para agarrar a bola, mas para se apartar do resto do time; veste outra camisa para que ninguém se esqueça de que ali, sob as traves, mora um homem — ou uma mulher — à parte. É este ofício, tantas vezes ingrato, que a revista France Football decidiu celebrar em dobro. Lorena, goleira do Kansas City e da Seleção Brasileira, está na lista. Duas vezes.
A indicação ao prêmio de melhor do mundo e de melhor da posição não é um telegrama burocrático vindo de Paris. É o reconhecimento de que a mão que defendeu dois pênaltis na final da Copa América contra a Colômbia, a mão que garantiu uma prata olímpica, tem o peso do ouro. Aos 29 anos, a menina revelada no Grêmio e que cruzou o continente para jogar nos Estados Unidos vê seu nome ao lado das gigantes de Barcelona, Lyon e Manchester City. Nomes que jogam com os pés, que marcam os gols, que decidem o jogo na área oposta.
Lorena decide na sua.
A camisa diferente
No futebol feminino, onde a luta por visibilidade ainda se trava em cada gramado, cada contrato, cada transmissão, ter uma goleira na lista principal da Bola de Ouro carrega uma simbologia particular. Não é a camisa 10, herdeira de uma linhagem de Pelés e Zicos, que chega a Londres. É a camisa 1. A última linha de defesa. A que representa a resiliência, o posto que não permite um segundo de distração, a posição em que um erro é fatal e um acerto, apenas a obrigação.
Claro, a indicação por si só não garante o troféu no dia 26 de outubro. O futebol, sabemos, tem suas próprias lógicas e seus próprios afetos, nem sempre justos com quem vive de evitar o espetáculo alheio. A lista da France Football é, antes de tudo, um retrato do momento, e este quadro ainda pode ser alterado por um único jogo, um único lance.
Mas enquanto o mundo discute quem merece o prêmio, a indicação de Lorena Leite já cumpre um papel. Ela lembra à arquibancada, do Maracanã a Kansas City, que o futebol também se vence com as mãos. Que a glória pode, sim, nascer de um voo desesperado para buscar uma bola no ângulo, do grito engasgado do adversário, do silêncio que se impõe ao estádio inteiro.
Afinal, qual a medida de uma grande jogadora? Apenas o gol que ela marca ou também aquele, definitivo, que ela impede?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fontes: CNN Brasil · ge