O muro de aço de Donald Trump
Análise · Clara Verdi A frase, postada em uma rede social enquanto o presidente americano discursava sobre economia em Michigan, tem a precisão…
Análise · Clara Verdi
A frase, postada em uma rede social enquanto o presidente americano discursava sobre economia em Michigan, tem a precisão brutalista de uma declaração de guerra: os Estados Unidos têm “controle total” sobre o Estreito de Ormuz. O bloqueio naval que asfixia os portos do Irã, ele exulta, já ganhou apelido — um “muro de aço”. Há uma geografia da força que não aparece nos mapas diplomáticos. É a geografia do poder nu.
Donald Trump não fala de negociações ou de mediação paquistanesa; ele descreve um estado de coisas. A retórica é a da vitória consumada, do inimigo humilhado: o Irã não tem Marinha, não tem Força Aérea, a Guarda Revolucionária está “dizimada e em fuga”. O país, em sua narrativa, está “acabado”, reduzido a notícias falsas e uma inflação de 300%. O que se ouve não é a voz de um estadista, mas a de um general vitorioso ditando os termos da rendição ao vento, para que todos ouçam.
Enquanto isso, de Teerã, uma voz anônima sussurrada à Reuters desenha uma realidade paralela. “Não houve nenhum progresso”, diz a fonte do regime. A conversa não é sobre estender um cessar-fogo, mas sobre a possibilidade de os Estados Unidos retornarem a um acordo que, segundo os iranianos, Washington violou 48 horas após assiná-lo. Onde Trump vê um muro, Teerã vê uma mesa vazia. Onde um declara o fim do jogo, o outro insiste que a partida sequer recomeçou sob as regras pactuadas.
O teatro da política internacional sempre se equilibrou entre o fato e a ficção, mas raramente a dissonância foi tão estridente. A afirmação de controle total sobre Ormuz não é apenas uma constatação tática; é um ato de fala performático, que busca criar a realidade que descreve. Ao declarar o Irã impotente, Trump tenta torná-lo impotente. É uma guerra travada tanto nos mares do Golfo Pérsico quanto na arquitetura volátil das palavras.
Mas um muro, mesmo que de aço, não anula a existência do que está do outro lado. Ele apenas o cerca. O que acontece quando a nação cercada se recusa a aceitar o veredito de seu carcereiro?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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