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O menino que vestiu a camisa errada

Análise · Marcos Tibúrcio Dezoito anos. Uma foto. Um adeus.

O menino que vestiu a camisa errada
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Dezoito anos. Uma foto. Um adeus. A história de Akiles no Cruzeiro não é sobre a bola que não entrou, mas sobre a camisa que não deveria ter sido vestida. O futebol tem destas ironias cruéis: um menino que chegou à Toca da Raposa apadrinhado pelo afilhado do presidente, vindo do clube de um cantor sertanejo, sai pela porta dos fundos não por um drible que errou, mas por um retrato que postou.

Em campo, a trajetória foi breve. Um lampejo no título da Copinha, sempre vindo do banco. Cinco jogos, um gol. Era a promessa de um meia que vestira a amarelinha da Sub-17. Na realidade da base celeste, porém, não se firmou. A bola, por vezes, escolhe outros pés. Acontece. O que não acontece, o que não se perdoa na liturgia da arquibancada, é a profanação. E vestir o manto do Flamengo, rival nas oitavas de final da Libertadores, foi exatamente isso.

O pedido de desculpas veio, protocolar como um lateral cobrado para a defesa. "Errei, me arrependo". Palavras que o vento leva. No futebol, a imagem é mais teimosa que o tempo. A fotografia com a camisa rubro-negra não foi o motivo da sua saída — o seu futebol ainda não havia convencido os donos da prancheta —, mas foi a sua sentença. Selou o divórcio. Tornou insustentável a permanência de quem, aos olhos do povo azul, já havia trocado de lado antes mesmo de ter um lado para chamar de seu.

O episódio, visto de longe, pode parecer o rigor excessivo sobre um garoto. Talvez seja. Mas o futebol profissional nunca foi um seminário de jovens. É um palco de paixões antigas, de lealdades que não cabem em contratos de cinco anos. Akiles, com um clique, violou uma cláusula não escrita, a mais importante de todas. Agora, o caminho é outro. Em Fortaleza, longe dos holofotes da Libertadores, ele terá a chance de construir uma história onde seu nome seja maior que seu erro. O talento dirá se a camisa do Ceará lhe cairá melhor.

Para o Cruzeiro, fica o eco de uma promessa que não se cumpriu. Uma vaga a mais na base. Para Akiles, fica a lição. No futebol, o que se faz com os pés importa muito. Mas o que se veste, às vezes, importa mais.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Meia Akiles, de 18 anos, deixa Cruzeiro e segue para o Ceará

Fonte: ge