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Médico falso viraliza com 70 milhões de views e engana pacientes

Helena Vasconcelos, de 82 anos, quase cancelou uma cirurgia de catarata após seguir conselho de um médico fake na internet que recomendava tratamento alternativo.

Médico falso viraliza com 70 milhões de views e engana pacientes

Análise · Helena Vasconcelos

Celi Ferreira tem 82 anos e quase cancelou uma cirurgia de catarata porque um médico na internet disse que ela era desnecessária. O médico não existia. Era um avatar gerado por IA, parte de uma cadeia produtiva que combina ferramentas de síntese de vídeo, copywriting algorítmico e monetização por afiliados — tudo calibrado para capturar exatamente o tipo de medo que Celi sentiu. O resultado acumulou mais de 70 milhões de visualizações.

Vale parar aqui e nomear o que está acontecendo com precisão, porque o fenômeno costuma ser descrito de dois modos igualmente imprecisos: como prova de que a IA vai destruir a realidade, ou como mais um capítulo da eterna história das fake news. Não é nem um nem outro.

O que existe é uma infraestrutura. Há um mercado estruturado de vídeos, ebooks e cursos que instrui produtores de conteúdo a usar avatares sintéticos para veicular afirmações de saúde alarmistas — quanto mais alarmistas, maior o engajamento, maior a conversão em venda de suplementos, aparelhos e programas. A IA entra não como protagonista, mas como barateador de produção: o que antes exigia contratar um ator, gravar, editar, hoje se faz com poucos cliques e custa uma fração do preço. A escala explodiu porque o custo marginal despencou.

O alvo não é aleatório. Idosos são o público com maior tempo de tela em plataformas de vídeo, maior propensão a buscar informação de saúde online e, crucialmente, menor exposição histórica à gramática de conteúdo sintético. Não é ingenuidade — é ausência de repertório. Ninguém nasce sabendo identificar um deepfake, e a curva de aprendizado está sendo atravessada por pessoas que têm 80 anos e uma cirurgia marcada.

A pergunta relevante não é se a IA é capaz de enganar. É quem lucra quando ela engana, e quais fricções — legais, técnicas, de design de plataforma — existem para tornar esse lucro mais difícil.

As plataformas de distribuição conhecem o mecanismo. O modelo de recomendação que amplificou esses vídeos até 70 milhões de visualizações não é neutro: ele otimiza engajamento, e conteúdo de medo produz engajamento mensurável. A IA gerativa reduziu o custo de entrada para produtores mal-intencionados, mas a infraestrutura de amplificação é anterior e pertence a empresas que têm nome, sede e receita publicitária.

Existe uma tendência confortável de tratar casos como o de Celi como problemas de alfabetização midiática — se as pessoas soubessem identificar conteúdo sintético, o problema se resolveria. A lógica transfere o ônus para o lado mais fraco da relação. Uma mulher de 82 anos não deveria precisar de conhecimento técnico sobre modelos de síntese de vídeo para tomar uma decisão médica segura. Esse é um padrão de design, não uma deficiência do usuário.

O que o caso revela é menos sobre capacidade técnica da IA — que aqui é modesta, um avatar razoável com voz sintética — e mais sobre a economia de atenção que o suporta. Ferramentas melhores de detecção ajudam na margem. O problema central é que há dinheiro suficiente no negócio para que ele continue se adaptando a qualquer fricção técnica que se coloque no caminho. Enquanto a equação de lucro não mudar, o médico que nunca existiu vai continuar acumulando views.

Helena Vasconcelos — Tecnologia — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Vídeos de falsos médicos feitos por IA viralizam entre idosos

Fontes: g1 · BBC News Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.