O Maracanã devolve um palco
Análise · Marcos Tibúrcio Havia outro estádio na disputa, uma arena em São Paulo onde o futebol delas prospera, onde o clube da casa é…
Análise · Marcos Tibúrcio
Havia outro estádio na disputa, uma arena em São Paulo onde o futebol delas prospera, onde o clube da casa é o mais vitorioso do país. A escolha pela Neo Química Arena seria lógica, um aceno ao presente. Mas o futebol, quando importa, não vive só de lógica. Vive de fantasma e de glória. E nenhum gramado brasileiro tem mais dos dois que o Maracanã.
A Seleção Feminina voltará ao estádio para abrir uma Copa do Mundo. A última vez que pisou ali, em 2016, pela semifinal da Olimpíada, saiu esvaziada por uma derrota nos pênaltis para a Suécia. Um empate sem gols, um silêncio pesado e o adeus ao sonho do ouro em casa. Dez anos separam essa memória da abertura de agora. Tempo suficiente para que uma ferida vire cicatriz — ou para que um fantasma se acomode nas arquibancadas de cimento.
Um acerto de contas
Voltar ao Maracanã, e logo de saída, não é apenas uma decisão administrativa. É um ato dramático. Uma aposta no reencontro com outro passado, um mais antigo, de 2007. Naquele Pan-Americano, Marta, Cristiane e Formiga transformaram o estádio em seu território. Goleadas de 7 a 0 no Canadá, 6 a 0 nos Estados Unidos na final. Eram outros tempos, talvez uma outra inocência no olhar do torcedor para com elas. O Maracanã era promessa, não assombração.
A escolha de agora obriga o futebol a olhar para si. O estádio que abrigará o primeiro e o último apito do Mundial é o mesmo que por décadas virou as costas para as mulheres que o queriam jogar. É claro que há quem veja apenas a tabela, o sorteio em Zurique, a logística das delegações que passarão por Fortaleza, Belo Horizonte, Brasília. Um roteiro funcional. Mas há também o peso da história, que nunca é apenas funcional.
A jornada até a final em 25 de julho é uma volta para casa, mas não se sabe ainda qual casa as jogadoras encontrarão: a da festa de 2007 ou a do velório de 2016.
O Brasil sabe o caminho de volta. Se for líder de seu grupo, passará por Castelão e Mineirão antes de uma semifinal em São Paulo. Se passar em segundo, o trajeto é outro, mas o destino final é o mesmo. A promessa é uma só: reencontrar o Rio de Janeiro. A decisão da Fifa, mesmo que movida por símbolos universais e potencial de imagem, devolve à seleção feminina um palco que é seu por direito e por dívida. Falta saber o que elas e a arquibancada farão com ele.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil