O mapa e o discurso
Análise · Luciano Aragão O número chegou de Roma na terça-feira (21), embalado em papel oficial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação…
Análise · Luciano Aragão
O número chegou de Roma na terça-feira (21), embalado em papel oficial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O Brasil, pelo segundo ano consecutivo, está fora do Mapa da Fome. A prevalência de subnutrição no país, referente ao triênio 2023-2025, manteve-se abaixo do piso técnico de 2,5% da população. É o tipo de dado que um governo imprime e distribui nas salas certas do Congresso Nacional.
A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, presente na 30ª Sessão do Comitê de Agricultura da FAO, cumpriu o rito. “Esses resultados nos lembram que a fome não é inevitável”, disse, atribuindo o feito à priorização de políticas públicas. A fala é parte do manual de qualquer governo que recebe uma estatística favorável de um organismo multilateral. É a transformação de um indicador em capital político.
O relatório, intitulado O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2026, é um esforço conjunto de cinco agências da ONU. Utiliza a mesma métrica há mais de meio século, a Prevalência de Subnutrição, que cruza disponibilidade de alimentos, distribuição de renda e acesso a calorias. A frieza da metodologia dá peso à conquista. O Brasil havia saído do mapa pela primeira vez em 2013, mas retornou na medição que cobriu o período de 2020 a 2022, quando o índice bateu 3,5%.
O dado atual, portanto, não é apenas um número positivo. É a consolidação de uma reversão. José Graziano da Silva, fundador do Instituto Fome Zero e ex-diretor-geral da própria FAO, classificou a notícia como “muito boa”. Vindo de quem comandou a agência por sete anos, o aval funciona como uma chancela técnica que o governo fará questão de ecoar.
Em Brasília, contudo, a celebração de um dado da ONU tem vida útil curta. A estatística é um retrato do passado, de uma trajetória. O desafio do presente é outro: sustentar a melhora em um cenário de contas públicas que não permite euforia. A fome não é inevitável, como disse a ministra, mas sua ausência no mapa não é permanente. Depende menos dos discursos em Roma e mais do que se assina, ou se corta, no Diário Oficial da União.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Brasil permanece fora do Mapa da Fome da ONU
Fonte: Agência Brasil