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O mapa do petróleo, rasgado em Bab el-Mandeb

Análise · Clara Verdi O comunicado houthi é de uma simplicidade brutal: um embargo marítimo contra o inimigo saudita.

O mapa do petróleo, rasgado em Bab el-Mandeb
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O comunicado houthi é de uma simplicidade brutal: um embargo marítimo contra o inimigo saudita. A lógica invocada é pré-moderna, bíblica, um “olho por olho” que ecoa de um Iêmen sitiado e, agora, sitiante. A ameaça, no entanto, é inteiramente do século XXI. Ela não se mede em canhões, mas em barris de petróleo que talvez não cheguem a seu destino, em navios-tanque que talvez tenham de recalcular suas rotas — se houver rotas para recalcular. O ponto nevrálgico chama-se Bab el-Mandeb, o portão das lamentações, a passagem estreita entre a África e a Arábia que se tornou, nos últimos meses, a artéria substituta de um Oriente Médio já infartado.

O que a Europa — e o resto do mundo que consome a energia do Golfo — assiste não é um mero espasmo de violência regional. É a desintegração calculada da geografia econômica. Com o estreito de Hormuz já comprometido pela guerra, a Arábia Saudita fez uma aposta logística de bilhões de dólares: desviar seu petróleo para o oeste, para o porto de Yanbu no Mar Vermelho, transformando a rota que passa pelo Iêmen e sobe até Suez na sua principal via de exportação. Foi uma manobra de contorno, uma tentativa de redesenhar o mapa da energia para escapar da pressão iraniana. Yanbu, que exportava menos de um milhão de barris diários há um ano, passou a escoar quatro milhões. Um sucesso de engenharia e estratégia. Um sucesso que dependia de uma única premissa: que o sul do Mar Vermelho permanecesse aberto.

A declaração houthi, impelida por Teerã, rasga essa premissa. O gesto transforma o plano B saudita em um beco sem saída. A nova frente de guerra não se abre em um deserto qualquer, mas exatamente sobre a linha de fuga que Riade havia construído para si. É um movimento de xadrez que demonstra como os chamados proxies, os atores por procuração, são muito mais do que peões no tabuleiro de seus patronos. Eles têm suas próprias contas a acertar, seus próprios cercos a revidar. A resposta ao “cerco injusto e opressor” imposto ao Iêmen é impor um cerco próprio, mirando não os quartéis sauditas, mas seus terminais de petróleo.

Ainda não se sabe se a ameaça se converterá em atos, se os mísseis e os drones voltarão a cruzar os céus sobre as águas. Mas a incerteza, por si só, já é uma arma. Ela reescreve os cálculos de risco das seguradoras, encarece o frete, força as capitais europeias e asiáticas a olhar de novo para os mapas. E a ver que os espaços em branco, as grandes massas de água azul, estão cheios de uma política que não pede licença para entrar nos salões da diplomacia. Ela simplesmente fecha a porta.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Houthis anunciam bloqueio naval à Arábia Saudita

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil