O mapa do futebol feminino tem um novo país
Análise · Marcos Tibúrcio O futebol tem uma geografia sentimental, não exata.
Análise · Marcos Tibúrcio
O futebol tem uma geografia sentimental, não exata. Países surgem no mapa não por decreto, mas pelo chute, pelo gol, pela camisa que se impõe num domingo qualquer. Neste domingo, nasceu um país novo. Chama-se Malawi.
A classificação para a Copa do Mundo do Brasil, em 2027, não foi um mero protocolo cumprido numa tabela de eliminatórias. Foi um parto. Gana, uma força tradicional, abriu o placar aos sete minutos. Para uma seleção estreante em fases agudas, isso costuma ser o roteiro da eliminação honrosa, do “valeu a luta”. Mas não para elas.
Cinco minutos depois, o empate. Obra de Temwa Chawinga, que carrega no sobrenome metade da história desta seleção. A outra metade é sua irmã, Tabitha. Duas mulheres, uma família, a espinha dorsal de um sonho que parecia delírio. Temwa não joga no campeonato local. Joga nos Estados Unidos, no Kansas City Current. Sabe o peso de uma virada.
O gol da classificação, porém, não veio dela. Veio aos 34 do segundo tempo, dos pés de Rose Kadzere. No futebol, os heróis se multiplicam. O drama exige coadjuvantes que roubam a cena no ato final. A Nigéria, única nação africana a ter disputado todas as Copas, não está classificada. Terá de buscar sua vaga na repescagem. A África do Sul, também. A hierarquia do continente foi rasgada em campo. O nome do rasgo é Malawi.
Enquanto gigantes europeias como Inglaterra e Holanda ainda disputam playoffs por um lugar no Brasil, as irmãs Chawinga e suas companheiras já podem procurar passagens para o Rio. Talvez para Salvador, ou Porto Alegre. Elas conquistaram o direito de olhar o mapa-múndi e imaginar onde, em 2027, farão o mundo aprender a pronunciar seus nomes.
O futebol feminino está redesenhando suas fronteiras. E o faz sem pedir licença aos cartórios ou aos historiadores de almanaque. O novo endereço do futebol, às vezes, é só um vestiário onde um time desacreditado decide que a história, naquele dia, será escrita por ele.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge