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O mapa da febre, a medida da indiferença

Análise · Clara Verdi A comparação é precisa, e por isso mesmo perversa. Uma área maior que a França.

O mapa da febre, a medida da indiferença
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A comparação é precisa, e por isso mesmo perversa. Uma área maior que a França. É assim que a ONU nos pede para imaginar a geografia do ebola na República Democrática do Congo. O número bruto — mais de 2.500 mortos — parece não bastar. Precisa-se do mapa, da transposição para uma paisagem familiar. Precisa-se dizer que o território da febre hemorrágica já engoliu a Bretanha, a Occitânia, a Île-de-France. O horror precisa de uma tradução para ser percebido. Sem ela, é apenas mais uma estatística africana.

O que a linguagem da burocracia internacional revela não é a dimensão da tragédia congolesa, mas a miopia de quem a observa de Genebra, Paris ou Roma. Metade das mortes ocorreu nos últimos vinte dias. O avanço da cepa Bundibugyo, para a qual não há vacina homologada, é descrito como "exponencial" — um termo clínico, asséptico, que esvazia a velocidade da morte de seu pavor. A resposta, admitem, é lenta, desorganizada e esbarra na desconfiança. Nada disso, porém, choca tanto quanto a necessidade de invocar a França para que o desastre se torne imaginável.

É um velho hábito colonial que sobrevive no discurso humanitário: medir o outro a partir do próprio umbigo. O Congo não é o Congo; é uma abstração do tamanho da França. Os mortos não são indivíduos; são o número que ultrapassa a epidemia letal de 2018-2020. Enquanto se testa a eficácia de uma vacina pensada para outra cepa do vírus, a indiferença europeia segue imune. A catástrofe só se torna notícia quando um funcionário da ONU encontra a metáfora geográfica correta. Uma metáfora que, no fundo, serve menos para alertar e mais para tranquilizar: acontece lá, longe, num lugar que podemos visualizar em nossos mapas, mas não em nossas vidas.

Esta leitura pode ser injusta com os homens e mulheres no terreno, que certamente não têm tempo para semântica. Mas a linguagem que chega aos gabinetes e às redações europeias importa. Ela molda a resposta política — ou a ausência dela. A febre avança mais rápido que os esforços para contê-la, é verdade. Mas a indiferença sempre foi mais veloz que o vírus.

Afinal, o que aconteceria se a notícia fosse o inverso — uma doença desconhecida, cobrindo uma área do tamanho do Congo, dentro da França?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Ebola já matou 2.500 na RDC e avança em área maior que a França

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.