Xaplin On
Brasília
Xaplin / jornalismo visual e documental
USD- EUR- GBP- JPY- BTC- ETH- SOL- BNB-

O léxico da catástrofe

Análise · Clara Verdi A palavra, antes do plano. A proposta do ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, de expulsar a totalidade…

O léxico da catástrofe
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A palavra, antes do plano. A proposta do ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, de expulsar a totalidade dos palestinos de Gaza — 250 mil em um ano, o resto nos seis seguintes — é uma peça eleitoral, dizem os manuais. Faltam poucas semanas para o pleito de 27 de outubro, a coalizão de Netanyahu é frágil, e o vocabulário da extrema direita precisa de ruído. Mas há algo que o cálculo político não explica. Ele não explica a escolha das palavras.

Ben-Gvir fala em "incentivar a emigração". O verbo é macio, quase burocrático, uma formalidade de consulado para um projeto de esvaziamento total. A realidade do léxico é outra: para os palestinos, qualquer movimento que os retire de suas terras reencena a Nakba, a catástrofe de 1948. A linguagem da administração contra a linguagem da memória. É nesse abismo que o plano se revela, não como projeto viável — os Estados Unidos já o rejeitaram publicamente —, mas como sintoma de um governo que testa os limites do dizível.

A história da violência é também a história da sua justificação. O ministro da Defesa, Israel Katz, do mesmo Likud de Netanyahu, admite a existência de planos para o deslocamento dos palestinos, mas afirma que se aguarda uma decisão dos Estados Unidos sobre o destino. O horror depende de um endereço. O deslocamento forçado de civis de um território ocupado é crime de guerra pela Convenção de Genebra, mas a palavra escolhida é "deslocar", não "expulsar". A legalidade internacional se desfaz na semântica de quem detém o poder.

O que se constrói aqui não é ainda uma política, talvez nunca venha a ser. O que se constrói é a normalização de uma ideia. Uma ideia que já habitava as margens e que agora é pronunciada do centro do governo, por um aliado fundamental do primeiro-ministro. A proposta de Ben-Gvir não é um raio em céu azul; é a consequência de um discurso que já falava em matar dezenas por noite em Gaza e celebrava a fome de prisioneiros palestinos com vídeos de inteligência artificial. A tecnologia a serviço da desumanização antiga.

O plano pode ser arquivado depois de 27 de outubro, descartado como delírio eleitoral de um extremista. A palavra, porém, uma vez dita do poder, não volta ao silêncio. Ela fica, pairando sobre as ruínas, à espera de um novo momento para se tornar fato. O que acontece quando a catástrofe deixa de ser memória e se converte em projeto?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Ministro de Israel propõe expulsar palestinos de Gaza

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL