Japão quebra tradição brasileira em Copa do Mundo
O Brasil historicamente subestima o Japão antes de enfrentá-lo em Copas. Análise de Marcos Tibúrcio sobre o equívoco antigo.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um equívoco antigo, quase uma tradição, na forma como o Brasil olha para o Japão antes de jogos de Copa do Mundo. O equívoco tem nome: subestimação disfarçada de respeito. Fala-se em "adversário honesto", em "jogo controlável", em "passagem para as quartas". O Japão, enquanto isso, treina.
O fato está posto: Brasil e Japão se enfrentam nas oitavas de final, segunda-feira, dia 29, às 14h, em Houston. O Japão chegou à fase eliminatória como segundo colocado do seu grupo — o que, por si só, já diz algo. Segundo colocado não é tropeço: é escolha de posição, administração de campeonato, às vezes até vantagem de chaveamento. A seleção japonesa empatou com a Suécia em 1 a 1 na terceira rodada da fase de grupos, o que indica uma equipe que já não precisa de grandes margens para avançar.
O Japão contemporâneo não é a seleção exótica que chegava às Copas como convidado simbólico do continente asiático. É uma geração criada nos clubes europeus — centroavantes que disputam titularidade em times da Premier League, meias que jogam na Bundesliga, laterais que conhecem a pressão do futebol de alto nível semana a semana. A naturalidade com que esses jogadores transitam pela posse de bola e pelo pressing alto não é herança de um estilo nacional fossilizado. É trabalho recente, consistente e reconhecível.
O perigo real não está no que o Japão improvisa. Está no que ele prepara.
O Brasil, por sua vez, chega às oitavas carregando o peso específico que toda seleção canarinho carrega em Copa do Mundo: não basta ganhar, é preciso convencer. A arquibancada — e aqui arquibancada significa o país inteiro — não aceita vitória feia como resposta. Aceita como resultado, talvez. Como argumento, nunca. E isso coloca o técnico numa encruzilhada que vai além do placar: se o Brasil vencer sem brilhar diante de um Japão bem postado, o debate sobre o estilo voltará com força antes das quartas.
Houston é uma cidade quente, de grama pesada em junho, com um estádio que enche de brasileiros expatriados que vivem nos Estados Unidos e que naquela segunda-feira vão querer ver futebol de verdade. Não estatística. Não posse de bola. Drama.
O Japão não virá para Houston fazer número. Virá para disputar. E a melhor coisa que pode acontecer ao Brasil, antes do apito inicial, é que alguém no vestiário diga isso em voz alta — sem diplomacia, sem protocolo. O respeito real ao adversário não é o que se fala na coletiva. É o que se coloca em campo nos primeiros quinze minutos.
Segunda-feira vai revelar de qual Copa do Mundo este Brasil quer fazer parte: a que se lembra ou a que se esquece rápido.
Marcos Tibúrcio — Esporte, Xaplin
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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