Japão volta ao futebol internacional com ambições em mata-mata
Há algo de perturbador na regularidade japonesa que marca seu retorno ao topo do futebol asiático.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há algo de perturbador na regularidade japonesa. Enquanto seleções de tradição mais ruidosa entraram nesta Copa do Mundo 2026 como se o torneio lhes devesse algo, o Japão tratou o Grupo F com a frieza de quem conhece o próprio tamanho — e sabe que esse tamanho já não é pequeno. O empate em 1 a 1 com a Suécia, em Dallas, foi apenas a formalidade final de uma classificação que parecia encaminhada antes mesmo de o apito soar no AT&T Stadium.
Vice-líderes atrás da Holanda, os japoneses chegam ao mata-mata sem o verniz do favorito e sem a fragilidade do azarão ingênuo. É uma posição conhecida para eles. Foi exatamente de lá, do lugar que ninguém observa com cuidado suficiente, que eliminaram a Alemanha e a Espanha no Catar. Quem não aprendeu a lição em 2022 terá de pagar a mensalidade agora.
E o pagador, desta vez, pode ser o Brasil.
O confronto está marcado para segunda-feira, às 14h de Brasília. Data, hora e adversário já conhecidos — o que ainda não se conhece é qual Brasil aparecerá. Não porque haja dúvida sobre qualidade individual, mas porque há uma pergunta mais antiga e mais honesta rondando a seleção: ela joga como time? O Japão, ao contrário, joga como time há anos. Há uma ideia coletiva, há uma forma reconhecível de pressionar, de transitar, de se organizar defensivamente sem abrir mão da transição ofensiva. Não é um sistema improvisado para uma Copa. É uma construção.
O Brasil terá pela frente uma seleção que não entende de hierarquia histórica. O Japão não sabe que deveria ter medo.
Isso, paradoxalmente, é o maior perigo. Adversários que chegam reverentes ao Brasil costumam se comportar como tal nos primeiros vinte minutos — e vinte minutos de respeito num mata-mata já são território fértil para o Brasil abrir o placar e resolver o jogo no conforto. O Japão não virá assim. Virá pressionando, virá em bloco, virá tentando fazer o Brasil errar no campo do Brasil — metáfora que, em campo, significa empurrar a seleção canarinha para trás e esperar o contragolpe como quem espera um bonde.
A arquibancada brasileira, onde quer que ela se forme na segunda-feira, precisará entender desde o início que não haverá passeio. Não porque o Brasil seja fraco. Mas porque o Japão é, há pelo menos uma década, a prova mais eloquente de que futebol não é só talento natural — é método, é disciplina, é a capacidade de transformar coletivo em arma. O país que inventou a linha de montagem também aprendeu a montar um time de futebol com precisão desconcertante.
O mata-mata começa segunda. O Japão já chegou.
Marcos Tibúrcio, Esporte — XaplinMarcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil · ge