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ICE libera imigrantes, frio mata e Estado é responsabilizado

Análise · Clara Verdi Há uma gramática específica nas mortes que os governos produzem sem disparar um único tiro.

ICE libera imigrantes, frio mata e Estado é responsabilizado

Análise · Clara Verdi

Há uma gramática específica nas mortes que os governos produzem sem disparar um único tiro. Ela foi descrita por juristas, por filósofos, por sobreviventes — e continua sendo ignorada toda vez que um corpo aparece no noticiário com a etiqueta conveniente de "causa natural". A morte de uma mulher haitiana na Pensilvânia, três dias após sua liberação pelo ICE, não é uma tragédia climática. É o que um médico legista do estado classificou como homicídio. A distinção importa mais do que qualquer detalhe operacional do caso.

Soltá-la foi o ato. Hipotermia foi o instrumento. A cadeia causal não é longa nem tortuosa — é direta. Uma pessoa detida, liberada em condições que tornaram sua sobrevivência improvável, morreu em consequência disso. O legista leu os fatos e nomeou o que viu. O que o Estado americano fará com essa nomeação é outra questão, mas o nome já existe e não pode ser desfeito.

O Haiti carrega consigo uma história que os países ricos preferem esquecer com elegância: foi a primeira república negra do mundo, nasceu de uma revolução que apavorou o Ocidente, e foi punida por isso durante dois séculos com embargo, dívida, ocupação e desastre. Quando uma mulher haitiana morre de frio nos Estados Unidos depois de passar pela custódia federal, esse passado não é decorativo — é estrutural. Ela não chegou à Pensilvânia por acaso. Chegou porque o Haiti foi sistematicamente impedido de ser um lugar onde se pudesse ficar.

A política migratória da administração Trump, em seu segundo ciclo, apostou em uma visibilidade calculada do sofrimento como dissuasão. Deportações televisionadas, algemamentos exibidos, detenções em massa — tudo compõe uma pedagogia do terror dirigida não apenas a quem está nos EUA, mas a quem ainda pensa em tentar. Soltar uma detenta em condições inadequadas, numa noite de março na Pensilvânia, pode ter sido negligência. Pode ter sido indiferença. O legista, porém, não trabalha com intenção — trabalha com resultado. E o resultado tem um nome.

O Estado não precisa querer matar para ser responsável pela morte. Precisa apenas construir as condições em que morrer se torna o desfecho mais provável.

A Europa assiste a isso com a distância confortável de quem tem seus próprios mortos no Mediterrâneo e prefere não fazer comparações. Mas a lógica é idêntica: a fronteira como dispositivo de filtragem em que algumas vidas são consideradas custosas demais para proteger. O que muda é a latitude e o nome do mar. O mecanismo é o mesmo — e a classificação jurídica que um médico da Pensilvânia teve a coragem de fazer deveria ser aplicada com igual rigor às políticas de externalização europeia que empurram barcos de volta à Líbia.

Homicídio é uma palavra que o jornalismo hesita em usar sem uma sentença. O legista não hesitou. Agora cabe perguntar quem, exatamente, responde por isso — e resistir à tentação de deixar a pergunta morrer junto com ela.

*Clara Verdi, correspondente Europa — Xaplin*

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Médico legista classifica morte de haitiana como homicídio

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL