O homem que sumiu dentro da própria sombra
Análise · Marcos Tibúrcio Há quatro anos, Julián Álvarez foi a surpresa que ninguém esperava e o gol que todo mundo lembra.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há quatro anos, Julián Álvarez foi a surpresa que ninguém esperava e o gol que todo mundo lembra. Entrou na Copa do Catar como coadjuvante e saiu como peça decisiva — quatro gols, lugar no onze titular, nome gravado em Al Lusail junto dos maiores. O time que ergueu a taça carregava o seu peso tanto quanto o de qualquer outro. Isso é fato. O que também é fato, e mais desconfortável, é que este Álvarez de 2026 ainda não encontrou o próprio endereço dentro do torneio.
Quatro jogos. Um como titular. Duzentos e vinte e quatro minutos. Zero gols. Zero assistências. Os números, que normalmente eu usaria apenas como ponto de partida, aqui chegam antes de qualquer palavra porque a ausência deles é o argumento central. O atacante que marcou vinte gols em uma temporada inteira pelo Atlético de Madrid — desempenho que levou o Real Madrid a oferecer 150 milhões de euros por ele — chega à Copa do Mundo e desaparece nos rascunhos de Scaloni.
O treinador argentino tem razões para a escolha. Lautaro Martínez ocupa o centro do ataque com uma consistência que não deixa fresta. Scaloni montou um time que não tem espaço para dois centroavantes de verdade ao mesmo tempo, e a disputa, neste caso, pende para quem tem mais espaço dentro do esquema — não necessariamente para quem tem mais talento ou mais forma. Álvarez entra no segundo tempo para pressionar a saída de bola adversária, e faz isso com competência. Mas entre pressionar a saída de bola e ser o homem que decide, há um abismo que, por ora, ele não cruzou.
O paradoxo é duro: nunca Julián Álvarez valeu tanto em dinheiro, e nunca produziu tão pouco numa Copa. A mesma Copa que quatro anos atrás o revelou ao mundo.
Fora do campo, a situação complica o quadro. Questionado sobre o futuro no futebol europeu, o atacante recusou responder com clareza — e ao recusar, respondeu o suficiente. O desejo de sair do Atlético de Madrid existe. O Real Madrid existe. O Barcelona existiu. O mercado paira sobre a Copa como um segundo torneio paralelo, travado em silêncio mas presente. Não é incomum que jogadores em situação assim carreguem o peso da indefinição dentro de campo. O corpo vai, mas a cabeça negocia.
As oitavas de final contra o Egito, em Atlanta, chegam como uma porta. Não qualquer porta — foi exatamente no mata-mata do Catar que Álvarez deslanchou, que o jogador discreto da fase de grupos se transformou em protagonista. A memória do que ele foi antes é um argumento a favor. O problema é que memória não entra em campo.
Argentina busca o quarto título. Scaloni tem um sistema que funciona. E dentro desse sistema, Julián Álvarez precisa encontrar uma razão para que o treinador confie nele mais do que o tem confiado. Não como referência ao passado, não como investimento de 150 milhões — mas como o jogador que está ali, naquela tarde em Atlanta, pronto para decidir. O resto é transferência. Isso é Copa.
*Marcos Tibúrcio, Esporte — Xaplin*Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge