Campeão da Copa pelo Brasil que nunca jogou pela seleção
Análise sobre a injustiça silenciosa na memória do futebol brasileiro com atletas esquecidos.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma injustiça silenciosa na memória do futebol brasileiro. Carlos Alberto Parreira, 83 anos, internado no Hospital Samaritano na Barra da Tijuca, é o único técnico vivo a ter conquistado uma Copa do Mundo pelo Brasil — e ainda assim passou décadas sendo cobrado por aquilo que não fez, em vez de celebrado pelo que fez.
O tetracampeonato de 1994 foi o mais mal amado dos títulos brasileiros. Não tinha Pelé. Não tinha Zico. Não tinha a ginga que o país exigia de si mesmo como certidão de nascimento. Tinha Mazinho, Mauro Silva, Mazinho a dar cobertura a Mauro Silva. Tinha um bloco organizado, defensivo na medida certa, letal nos momentos em que precisava ser. Era, em suma, um time que jogava para vencer — escândalo imperdoável aos olhos de quem confundia futebol com dança.
Parreira pagou por isso. Pagou durante a campanha, quando a imprensa reclamava do tédio. Pagou depois, quando o título foi celebrado a contragosto, como quem engole um remédio eficaz mas amargo. O futebol brasileiro tem dificuldade histórica em respeitar quem vence de forma pragmática. Prefere o perdedor bonito ao campeão feio. Parreira foi campeão e feio — na percepção da época — ao mesmo tempo, e isso o colocou numa posição ingrata que o acompanhou por toda a carreira.
Mas o placar final da história não é o que a crônica escreve no calor do jogo. É o que fica.
O que ficou foi a taça. E a taça ficou com ele.
Nesta Copa do Mundo de 2026, enquanto seleções do mundo inteiro chegam aos Estados Unidos, México e Canadá carregando modelos táticos que o futebol dos anos 1990 mal conseguia imaginar, é curioso perceber o quanto aquela escolha de Parreira — solidez antes de espetáculo, equipe antes de estrelas — antecipou um debate que o futebol só formalizaria décadas depois. O técnico que foi chamado de covarde era, na verdade, moderno.
Parreira passou por mais seleções do que qualquer outro treinador da história das Copas. África do Sul, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Venezuela, Kuwait — um homem que transformou treinamento em ofício universal, que aprendeu que futebol não fala apenas português e que a bola obedece a leis que transcendem o sotaque. Voltou ao Brasil em 2006, outro torneio, outro colapso de expectativa, outro processo de culpabilização injusta.
Agora ele está internado, e o Brasil está sem Copa desde 2002. Vinte e quatro anos sem conquistar aquilo que Parreira conquistou. O tempo é um árbitro mais honesto do que pareceu na época.
Que ele se recupere. Que a notícia desta semana seja apenas um susto, e não um capítulo final. O homem merece ver mais uma Copa. Merece, sobretudo, ser lembrado com a precisão que o julgamento de 1994 negou a ele — não como o técnico que roubou o futebol bonito do Brasil, mas como aquele que, num junho de calor californiano, colocou o Brasil no topo do mundo pela quarta vez.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Carlos Alberto Parreira é internado no Rio aos 83 anos
Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo
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