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O homem que fez o Brasil campeão luta por ar

Análise · Marcos Tibúrcio Carlos Alberto Parreira está sedado numa UTI, respirando com auxílio de aparelhos, com os pulmões em colapso e os rins…

O homem que fez o Brasil campeão luta por ar
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Carlos Alberto Parreira está sedado numa UTI, respirando com auxílio de aparelhos, com os pulmões em colapso e os rins precisando de ajuda para fazer o que já não conseguem sozinhos. Tem 83 anos. E o Brasil joga uma Copa do Mundo sem que o país precise se lembrar do que ele representa — porque o futebol, quando é grande, não para para ninguém.

Mas vale parar.

Parreira foi internado em 16 de junho, quando o torneio já havia começado. Agora, com o quadro infeccioso pulmonar agravado, voltou a ser sedado. A hemodiálise foi acrescentada ao protocolo. São sinais que quem entende de medicina lê de uma forma e quem já perdeu alguém em UTI lê de outra — mais funda, mais crua.

Existe uma injustiça sutil na forma como a história trata os técnicos campeões. Pelé é Pelé para sempre, Zagallo carregou a lenda até o fim, Ronaldo virou estátua viva. Mas Parreira — que pegou um grupo de indivíduos brilhantes e difíceis nos Estados Unidos em 1994 e entregou o tetra — ficou marcado, para parte considerável da arquibancada, pela nota estética. O Brasil de 94 não era bonito, diziam. Como se beleza e taça fossem a mesma coisa. Como se o troféu pesasse menos por ter sido conquistado com organização, trabalho e uma estratégia que ninguém queria reconhecer como genial porque não cabia no roteiro do jogo alegre.

O Brasil não perdeu uma partida sequer naquele Mundial. Parreira construiu uma seleção que não se deixava vencer. Na arquibancada, isso tem um nome menos glamouroso do que merece.

Ele voltaria à seleção em 2006, chegaria à quartas de final e sairia mais uma vez sem o reconhecimento proporcional ao feito. Trabalhou em seis Copas do Mundo por diferentes países — África do Sul, Kuwait, Arábia Saudita. Não era apenas um técnico brasileiro. Era um técnico de futebol, no sentido mais universal do termo.

Agora, enquanto a Copa de 2026 avança nos Estados Unidos — o mesmo país onde ele fez história três décadas atrás —, Parreira respira com a ajuda de uma máquina numa UTI no Brasil. Há algo perturbador nessa sobreposição de datas e geografias. O torneio que ele conhece melhor do que quase qualquer brasileiro vivo segue sem ele, e ele segue lutando para continuar.

O futebol é ingrato por natureza. A arquibancada esquece rápido e lembra de forma seletiva. Mas há momentos em que vale suspender o jogo por um instante — não por sentimentalismo barato, mas por respeito à dimensão do que está em risco. Carlos Alberto Parreira está a 83 anos e numa UTI, e o Brasil que ele fez campeão tem obrigação de saber disso.

— Marcos Tibúrcio

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Parreira piora na UTI e volta a respirar com auxílio de aparelhos

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil