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Messi: a jornada de um craque para a aceitação na Argentina

Lionel Messi enfrentou desconfiança em sua própria terra. Uma análise da transformação do craque.

Messi: a jornada de um craque para a aceitação na Argentina
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Houve um tempo, e não faz tanto tempo assim, que Lionel Messi era um estrangeiro em seu próprio país. Jogava com a camisa azul e branca, mas o corpo parecia emprestado do Barcelona. Faltava a fúria, diziam nas mesas de bar de Buenos Aires; faltava o sangue nos olhos, gritava o torcedor do River da arquibancada do Monumental. Faltava ser argentino. Messi era um gênio de laboratório, impecável e distante, que colecionava taças na Europa enquanto sua seleção colecionava tristezas em finais seguidas — um Mundial, duas Copas América. Três punhais cravados no orgulho de uma nação.

A história da consagração de Messi, portanto, não é a história de como ele aprendeu a ganhar. É a história de como ele aprendeu a perder.

O palco dessa virada não foi uma final gloriosa, mas uma semifinal melancólica em Belo Horizonte. Copa América de 2019, Mineirão. O Brasil venceu por 2 a 0 e mandou para casa a Argentina de sempre. Mas o Messi que saiu daquele gramado não era o de sempre. Aquele camisa 10 que, até então, reagia à derrota com o silêncio de quem se retira para dentro de si, encontrou algo diferente no fundo do poço. Encontrou a raiva.

A fúria necessária

Dias depois, na disputa pelo terceiro lugar contra o Chile, vimos o resultado. Messi, o craque cerebral, o artista da bola mansa, foi para o confronto físico com Gary Medel, um zagueiro que parece ter sido esculpido em rocha e ressentimento. Peito com peito. Palavra com palavra. Os dois foram expulsos. Ali, naquele instante de destempero, a Argentina talvez tenha encontrado o líder que procurava. O homem que não aceitava mais a derrota passivamente, nem mesmo numa partida que valia pouco. Ele sangrava como os outros.

Aquele Messi que encarou Medel era um homem que não precisava mais da aprovação de ninguém. Ele só precisava de um título.

O que se seguiu foi a colheita. A Copa América de 2021, conquistada contra o Brasil, dentro do Maracanã. A Finalíssima. E, finalmente, a redenção no Catar, em 2022, levantando a única taça que lhe escapava, a que define deuses e mortais. O ciclo se completou com o bicampeonato continental em 2024. O jogador que antes era criticado por não cantar o hino tornou-se a própria bandeira. Tudo, porém, pode ser visto sob outra luz: talvez não tenha sido Messi que mudou, mas a própria Argentina que, exausta de esperar por um novo Maradona, aprendeu a amar o gênio que tinha.

Agora ele se despede. Sai como um herói nacional, reverenciado e, enfim, compreendido. Sai no topo, como os grandes devem sair. Mas que ninguém se esqueça que o caminho para o céu passou, necessariamente, por uma noite de inferno no Mineirão. Que herói nasce pronto?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Messi se despede da Argentina após Copa América e Mundial

Fonte: ge