O herói que o Maracanã esqueceu
Análise · Marcos Tibúrcio Há heróis de um turno só. Lucho Acosta, o argentino baixinho que o Fluminense adotou, era um deles.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há heróis de um turno só. Lucho Acosta, o argentino baixinho que o Fluminense adotou, era um deles. Era o homem que entortava zagueiros e, numa tarde de sol, aplicou um chapéu no goleiro do Botafogo para dar a vitória ao tricolor. Era o último clássico que o clube venceu. A arquibancada, que um dia gritou seu nome, hoje parece ter esquecido a própria voz.
A memória do cimento é curta. Na última quarta-feira, contra o Vasco, o que se ouviu não foi o aplauso pelo que fez, mas a vaia pelo que se tornou. Uma bola perdida no meio-campo, um contra-ataque, o gol do rival. E o veredito das arquibancadas: a substituição sob vaias. O futebol cobra o presente. O passado é um retrato na parede, empoeirado.
A sombra do cartão amarelo
O problema de Acosta não é apenas a bola que não entra ou o drible que não encaixa desde uma lesão no joelho. Uma coisa é a perna que falha; outra, a suspeita que paira. Pesa sobre ele uma investigação sobre manipulação de resultados, um cartão amarelo contra o Bragantino que acendeu mais alarmes do que qualquer jogada de ataque. O drama, agora, não se joga apenas nas quatro linhas. Transcorre em salas de promotores e em conversas cifradas que ninguém na arquibancada entende, mas todos desconfiam.
O corpo técnico fala em "confiar nas pessoas". O torcedor confia no que vê. E o que ele vê é o maestro da equipe que disputava a liderança do campeonato transformado num jogador hesitante, cuja queda de rendimento arrastou o time inteiro para o lodo. O Fluminense não joga mais como o Fluminense de Acosta. E Acosta não joga mais como o Acosta do Fluminense.
Neste sábado, o palco é o Nilton Santos. Do outro lado, o mesmo Botafogo. Talvez comece no banco, um rei deposto assistindo aos súditos que já não lhe obedecem. Mas a bola, como o destino, é caprichosa. Ela pode rolar para seus pés novamente.
Será a chance de reescrever a história ou de confirmar o esquecimento? Ou será que certos heróis, uma vez caídos, nunca mais se levantam?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Lucho Acosta, do Fluminense
Fonte: ge