Haiti vai além de apenas participar da Copa
O Haiti chega à Copa do Mundo com propósito além da mera participação. Análise de Marcos Tibúrcio sobre o perigo silencioso que antecede jogos de grande assimetria.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um perigo silencioso que antecede todo jogo de grande assimetria numa Copa do Mundo: o adversário chega ao campo antes de o jogo começar. Chega na cabeça. Nos olhos arregalados do zagueiro que cresceu vendo pôster na parede. Na voz que treme um pouco quando o repórter pergunta sobre o Brasil. O técnico do Haiti sabe disso. E é contra esse inimigo invisível que ele trabalha desde que a chave foi sorteada.
A declaração é reveladora justamente no que equilibra: o treinador admite que o encontro é "incrível" para o grupo — e seria desonesto negar —, mas faz questão de não deixar que a admiração vire reverência paralisante. Existe uma linha muito fina entre respeitar um adversário e ter medo dele. Cruzá-la, para uma seleção que disputa apenas sua segunda Copa do Mundo, é o risco mais real do confronto desta sexta-feira.
O Brasil pentacampeão carrega um peso simbólico que vai além da qualidade técnica do elenco que está em campo. É um peso histórico, mitológico quase, que se impõe antes do apito inicial. Pelé, Ronaldo, Zico — esses nomes não ficam no livro de história quando o hino toca. Eles entram em campo junto. Para um jogador haitiano que cresceu no Caribe consumindo futebol brasileiro pela televisão, administrar isso é um trabalho interno de proporções consideráveis.
O técnico, ao falar sobre o assunto, assume um papel que vai além da prancheta: é quase um trabalho de desencantamento. Não se trata de convencer os atletas de que o Brasil é fraco — nenhum treinador sério tenta essa fraude emocional. Trata-se de convencê-los de que adversários de carne e osso se batem, se marcam, se desequilibram. Que a camisa amarela não é armadura.
Toda seleção menor que chega a uma Copa com alguma dignidade técnica precisa de um técnico que seja, antes de tudo, um gerente de realidade.
O Haiti desta edição não é o mesmo de 1974, estreante absoluto que tomou gols e foi embora sem pontuar. Há uma segunda aparição, há uma história acumulada, há jogadores que atuam em ligas profissionais na Europa e nas Américas. A ingenuidade coletiva, se existiu, já passou. O que resta é a gestão desse encantamento residual — e o técnico parece ter clareza sobre isso.
O jogo de sexta-feira vai dizer muito menos sobre a qualidade do Brasil do que sobre a cabeça do Haiti. Uma seleção que entra em campo para não perder feio é derrotada antes do primeiro toque na bola. Uma que entra convencida de que pode incomodar, marcar, criar um problema — essa, ainda que perca, sai com algo. O técnico haitiano parece estar brigando por esse segundo grupo. Se conseguir, o placar ao final será apenas um número. O que vai ficar é outra coisa.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Técnico do Haiti trabalha para que elenco não vire admirador
Fonte: ge