O goleiro que não embarcou
Análise · Marcos Tibúrcio Zion Suzuki arrumou as malas.
Análise · Marcos Tibúrcio
Zion Suzuki arrumou as malas. Em Parma, o goleiro japonês deve ter ensaiado o francês básico e sonhado com o tapete verde do Parc des Princes. A passagem para Paris estava emitida. O contrato de cinco anos, com seus 35 milhões de euros cravados em papel timbrado, esperava apenas a assinatura. Um homem está a um voo de distância de um destino, até que o telefone toca.
O Paris Saint-Germain, que se acostumou a pagar o impagável por quem bem entende, recuou. O clube dos emires e das cifras astronômicas se disse irritado. A razão, segundo se noticia, não estava na ponta da luva de Suzuki, mas no bolso dos homens de gravata que o cercam. Comissões. Uma palavra que, no futebol moderno, significa mais que passes, desarmes ou defesas. Significa a parte do leão que não entra em campo, não sua a camisa e jamais ouve a corneta da geral.
A cena é um retrato do jogo que se joga fora das quatro linhas. Um atleta, no auge de sua forma, herói de uma Copa do Mundo por ter adiado até o último minuto o destino do Brasil, torna-se peça secundária em sua própria história. Ele não é mais Zion Suzuki, o arqueiro que parou atacantes. É um ativo, um nome em uma planilha, um pretexto para que o dinheiro troque de mãos nos bastidores. A arquibancada vê o homem que salta, o dirigente vê o custo. E o empresário, pelo visto, enxerga a oportunidade.
Enquanto o avião de Suzuki permanecia em solo italiano, a engrenagem do mercado girava, indiferente ao drama particular. Em Birmingham, o Aston Villa já fazia suas contas. O clube inglês pode perder seu goleiro, o argentino Dibu Martínez, para a Juventus. A mesma Juventus que, semanas atrás, cogitou o próprio Suzuki. É um carrossel de luvas e milhões, onde o jogador é o último a saber para qual cavalo deve pular. A camisa de um clube, que para o torcedor é pele, para outros é apenas a etiqueta de preço do momento.
Suzuki, o rapaz revelado no Urawa Reds, vai jogar na Europa. Em Paris ou em Birmingham, seu nome estará na súmula. Mas o episódio deixa um gosto amargo. É a prova de que o talento, por maior que seja, às vezes espera o acerto de contas de quem nunca precisou defender um pênalti na vida.
Afinal, quem escala o time: o técnico ou o contador?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge