Goleiro defende-se de ataque criminoso em campo
Goleiro Marcos Tibúrcio enfrenta ataque criminoso durante partida e garante a própria segurança, marcando um episódio de superação pessoal no esporte.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um cansaço que vem da glória, e outro que anuncia a guerra. Matheus Costa, goleiro da seleção de cegos, voltou de Paris em 2024 com uma medalha de bronze no peito e o corpo exausto. Culpou a comida, a viagem, o fuso. O corpo do atleta é um mapa de dores conhecidas. Esta, porém, era uma dor estrangeira. A fadiga que o derrubava não vinha do campo, mas de dentro. Era um linfoma de Hodgkin.
O futebol de cegos exige do goleiro — o único em campo que enxerga — uma percepção que beira o sobrenatural. Ele é a bússola, o guia, a última muralha de um time que se move pelo som e pela confiança. Sua voz orienta, seu corpo defende. De repente, a arena de Matheus mudou. Saiu o gramado, entrou o hospital. Trocou o grito da defesa pelo silêncio da quimioterapia. Foram doze sessões. Vinte de radioterapia. Um ano inteiro em que o adversário não vestia uniforme, não chutava a bola, não tinha rosto. Era um inimigo íntimo, anônimo, que atacava o sistema linfático.
Dizem que o goleiro é um homem solitário. Na sua batalha mais quieta, porém, Matheus não esteve só. A família, os amigos, a esposa Renally Mota, fizeram a arquibancada que o tratamento não permite. Enquanto o corpo recebia a medicação que tanto castiga quanto cura, ele mantinha treinos físicos. Um tipo de teimosia que só o esporte ensina. A teimosia de quem sabe que o jogo só acaba no apito final — e para ele, o apito ainda não soara.
Seu retorno ao gol, na Colômbia, já com um título, não é o fim de um roteiro, mas a retomada de uma vocação. É um homem que volta a fazer o que nasceu para fazer, depois de ser forçado a fazer o que ninguém deveria: lutar pela própria vida. O esporte tem a memória curta; vive do próximo jogo, do próximo campeonato. A Copa América em São Paulo será o palco, a vaga para Los Angeles em 2028, o horizonte. Esta leitura, claro, é a de hoje; o futuro no esporte é sempre um rabisco a lápis.
Mas há marcas que não saem. Matheus Costa fez a defesa mais espetacular de sua carreira longe de qualquer câmera. Uma defesa que não rendeu manchete de jornal no dia seguinte, mas lhe devolveu todos os dias seguintes. Que tipo de atacante um goleiro que driblou a morte pode temer?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge
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