O garoto, a camisa amarela e o bilhete de Ceni
Análise · Marcos Tibúrcio Há um drama silencioso que o futebol repete à exaustão, longe do apito e da cal.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um drama silencioso que o futebol repete à exaustão, longe do apito e da cal. É o do treinador que olha para a prancheta e vê um buraco onde antes havia um nome. Para Rogério Ceni, o buraco tem a forma de Ademir, suspenso. A solução tem 17 anos, custou R$ 14 milhões e atende por Kauê Furquim. O problema é que a pátria, na sua hora, também o chama.
O Bahia negocia com a CBF. A palavra é essa, "negocia", um eufemismo de corredor para o cabo de guerra entre o dever do clube que paga o salário e a honra da camisa amarela que forma o jogador. A seleção sub-17 marcou data com Furquim para amistosos na Granja Comary. É a preparação para um Mundial. É o sonho. Mas o próximo domingo, em Salvador, não é sonho; é a Chapecoense, e para Ceni é a mais pura e prosaica realidade.
A questão não é apenas ter o garoto em campo. Ceni foi claro, com a sinceridade áspera de quem conhece o ofício: "Eu preciso dele para treinar". Futebol não é mágica, não se invoca um jogador do avião direto para a pequena área. É repetição, suor, o entrosamento que nasce na rotina dos treinos. Um garoto, por mais que brilhe — e Furquim brilhou contra o Vasco, quando o destino o empurrou para o gramado —, precisa do mapa que se desenha durante a semana.
Kauê é uma opção real para essa partida. Podemos tentar a liberação para que o jogador trabalhe com a gente.
O que se vê é o paradoxo do talento precoce. O Corinthians se indignou com sua saída. O Bahia pagou o que se paga por uma promessa que já é certeza. A seleção o convoca. E o clube que o comprou precisa pedir licença para usá-lo. Furquim, que pulou do sub-20 para o time de cima, vive agora o maior salto de todos: o de ser, ao mesmo tempo, o futuro da Seleção e o presente indispensável do Bahia.
Na arquibancada, a conta é mais simples. O torcedor viu o garoto entrar, viu o que ele fez. Não quer saber de amistoso em Teresópolis, de preparação para novembro. Ele quer saber do domingo. Quer a solução para a ausência de Ademir. E a solução, ele já viu, corre, dribla e veste a camisa tricolor.
Enquanto os dirigentes trocam telefonemas com o Rio de Janeiro, Kauê Furquim treina. Para qual jogo, para qual camisa? Talvez nem ele saiba. Mas já entendeu, aos 17 anos, a primeira lição do ofício: um jogador nunca pertence apenas a si mesmo.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Bahia negocia liberação de Kauê Furquim da seleção sub-17
Fonte: ge