O freio que cedeu: álcool e trânsito após a pandemia
Análise · Dra. Camila Torres Durante cinco anos, o Brasil havia feito algo que países com problemas crônicos de trânsito raramente conseguem: dobrar…
Análise · Dra. Camila Torres
Durante cinco anos, o Brasil havia feito algo que países com problemas crônicos de trânsito raramente conseguem: dobrar uma curva. As mortes atribuídas ao álcool no trânsito caíam de forma consistente. Não era magia — eram blitz, multas, campanhas de fiscalização e, talvez acima de tudo, a normalização lenta de um comportamento novo: o motorista que deixa o carro estacionado e chama o aplicativo. Depois da pandemia, essa curva dobrou de volta.
O crescimento registrado agora não é ruído estatístico. É uma reversão com anos seguidos de alta, o que em epidemiologia tem nome: tendência. E tendência exige explicação estrutural, não episódica.
Vale lembrar o que a pandemia fez com o tecido social do consumo de álcool. Estudos publicados entre 2021 e 2023 — entre eles análises no Lancet Psychiatry e no Addiction — documentaram aumento expressivo no consumo per capita em populações de renda média e alta em vários países, incluindo o Brasil, junto com uma reorganização dos padrões: menos consumo em bares com fiscalização, mais consumo doméstico e noturno, fora dos circuitos convencionais de controle. Quando as ruas reabriam, esse consumo ampliado não desapareceu — migrou.
Há um segundo fator que o dado epidemiológico não captura sozinho: a erosão da percepção de risco. Fiscalização intermitente, blitz previsíveis, aplicação desigual da Lei Seca pelo país — tudo isso recalibra, silenciosamente, o cálculo que o motorista faz antes de sair do estacionamento. O risco objetivo pode continuar alto; o risco percebido, que é o que governa comportamento, pode ter despencado.
Morte no trânsito não é acidente. É desfecho previsível de uma cadeia de decisões — individual, coletiva, institucional — que permitiu chegarem juntos na mesma esquina: o veículo, a velocidade, o álcool e a ausência do Estado.
A palavra "acidente" é, nesse contexto, um problema político antes de ser um problema semântico. Ela distribui responsabilidade de forma difusa, alivia gestores públicos e transforma o que é falha de política em tragédia do destino. A literatura em saúde pública — e a Organização Mundial da Saúde vem insistindo nisso ao menos desde o Relatório Global de Segurança Viária de 2018 — prefere "sinistro de trânsito" exatamente porque o termo obriga a perguntar: o que tornou esse evento provável?
O Brasil tem instrumentos legais que funcionam quando aplicados. A Lei Seca, sancionada em 2008 e endurecida em 2012, produziu os cinco anos de queda que agora parecem distantes. Não foi revogada. Foi, de forma silenciosa, desidratada pela inconsistência na execução. Retomar a curva descendente não exige nova legislação — exige decisão política de fazer valer a que existe, com regularidade e sem sazonalidade de campanha.
O dado publicado hoje é, em si, um diagnóstico. O que ele testa não é a engenharia da lei, mas a disposição de aplicá-la. E essa disposição, como quase tudo em saúde pública, é uma escolha — não uma fatalidade.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Mortes no trânsito por álcool crescem no Brasil desde a pandemia
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.