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O Estreito que o Irã fechou e o mundo

Análise · Clara Verdi Há uma lógica perversa na geometria do poder no Golfo Pérsico que a conjuntura desta semana torna legível de forma quase…

O Estreito que o Irã fechou e o mundo
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Análise · Clara Verdi

Há uma lógica perversa na geometria do poder no Golfo Pérsico que a conjuntura desta semana torna legível de forma quase pedagógica. O Estreito de Ormuz tem vinte e um quilômetros em seu ponto mais estreito. Por ali passa, segundo estimativas históricas, algo próximo a um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Fechar esse corredor não é um gesto militar — é um gesto metabólico. É interromper a circulação sanguínea de uma economia-mundo.

A Guarda Revolucionária do Irã, a IRGC, fechou o estreito por tempo indeterminado na noite deste sábado após disparar um tiro de advertência contra uma embarcação que, segundo Teerã, tentava transitar por rota não autorizada. O porta-contêineres M/V GFS Galaxy, de bandeira cipriota, está com incêndio a bordo, danos graves na casa de máquinas, e um tripulante desaparecido. Em resposta, o Comando Central dos EUA anunciou o que chamou de terceira rodada de ataques contra o Irã nesta semana — ataques realizados, segundo o próprio CENTCOM, "sob orientação do comandante em chefe", Donald Trump.

O que se passa aqui ultrapassa a lógica de ataque e represália. Há um cessar-fogo provisório que o CENTCOM chama de Memorando de Entendimento. O Irã o viola — ou viola segundo Washington. Os EUA bombardeiam em resposta — ou punem preventivamente, segundo Teerã. A semântica de cada lado fabrica sua própria legalidade. O que nenhum dos dois lados consegue fabricar é uma saída.

O Irã prometeu que qualquer ação militar usando o incidente como pretexto receberá "resposta severa". Os EUA afirmam estar "reduzindo a capacidade do Irã de atacar livremente marinheiros civis". Cada frase é uma faca que afia a seguinte.

Vista de Roma, de Paris ou de Berlim — capitais que dependem do fluxo energético do Golfo tanto quanto qualquer outra — a situação convoca uma pergunta que a Europa sistematicamente adia: onde está sua agência neste conflito? A União Europeia, que passou os últimos três anos afirmando sua soberania estratégica, não figura em nenhum dos comunicados desta semana. Nem como mediadora, nem como parte. Figura apenas como consumidora silenciosa de um petróleo cuja rota agora arde.

A revogação, na terça-feira, da licença americana de venda de petróleo iraniano compõe o mesmo arco. A pressão econômica e a pressão militar não são instrumentos paralelos — são o mesmo instrumento em frequências diferentes. O Irã lê essa combinação com precisão histórica: já viveu sanções, já viveu bombardeios, já viveu a promessa de colapso que não veio. O que o Irã talvez não tenha calculado é o preço de jogar com o Estreito enquanto o preço do petróleo dispara e o mundo que precisaria defendê-lo diplomaticamente não tem nem porta-voz para ligar.

O que acontece no Ormuz neste sábado não é o começo de uma guerra, nem o fim de uma paz. É a face mais crua de uma ordem internacional que não sabe mais quem tem autoridade para dizer "basta" — e que, enquanto não sabe, incendeia navios civis e chama isso de geopolítica.

Clara Verdi, correspondente Europa — Xaplin

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Irã fecha Estreito de Ormuz e EUA lançam novos ataques

Fontes: g1 · CNN Brasil

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