Acordo enfrenta desconfiança diplomática intransponível
Análise sobre os obstáculos políticos que um memorando de 14 pontos não consegue superar com assinatura.
Análise · Clara Verdi
Existe uma geometria da desconfiança que nenhum memorando de 14 pontos desfaz com uma assinatura. O Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo — reabre, segundo o acordo mediado pelo Catar entre Washington e Teerã. O bloqueio naval americano se encerra. O Irã compromete-se, em texto, a jamais desenvolver arma nuclear. Trezentos bilhões de dólares são prometidos para reconstrução. No papel, é o maior reordenamento do Oriente Médio em décadas. No papel.
A história do Irã com acordos firmados sob pressão externa tem uma gramática própria. O JCPOA de 2015 — o acordo nuclear negociado com Obama, a Europa e a China — foi durante anos citado como modelo de diplomacia multilateral. Durou até 2018, quando Trump o abandonou unilateralmente e reimplementou sanções. O que aquele episódio ensinou ao establishment iraniano não foi que acordos são frágeis. Foi que acordos com os Estados Unidos são particularmente frágeis quando mudam as administrações. Esse aprendizado não desapareceu. Está inscrito na memória institucional da República Islâmica.
O Catar como mediador é uma escolha que diz algo. Doha tem a habilidade rara de manter canais abertos com atores que se recusam a sentar à mesma mesa — fez isso com o Hamas, com o Talibã, agora aqui. Sua utilidade é precisamente a de não ser parte. Mas mediador não é fiador. Quem garante os 14 pontos quando o próximo governo americano decidir que o acordo é inconveniente? A pergunta não é retórica. É a pergunta central.
O pacote de US$ 300 bilhões para reconstrução e desenvolvimento é o número mais ambicioso do documento — e, por isso mesmo, o mais suspeito. De onde vem esse dinheiro, em que prazo, sob que condicionalidades: o material disponível não responde. E é exatamente nesses silêncios que os acordos morrem.
Do ponto de vista europeu — que é de onde escrevo — o acordo produz um efeito imediato e um efeito de prazo longo que apontam em direções opostas. Imediato: o Estreito de Ormuz reaberto alivia uma pressão sobre os mercados de energia que já pesava sobre economias europeias que ainda não se recuperaram completamente dos choques dos últimos anos. Prazo longo: um Irã reintegrado à economia global, com capital para reconstrução, é um Irã com mais margem de manobra — o que pode ou não ser estabilizador, dependendo de quais facções internas capitalizarem esse momento.
Há uma cena que imagino, sem que nenhum repórter a tenha descrito: os técnicos do Ministério das Relações Exteriores em Teerã lendo o memorando ponto a ponto, sublinhando o que está escrito e anotando nas margens o que não está. É nessas margens que a política real acontece. Sempre foi.
O acordo existe. Que entre em vigor, como diz o Paquistão, imediatamente. Mas entre em vigor significa algo muito mais modesto do que encerrar um conflito. Significa que o conflito passa a ter outro nome.
Clara Verdi, Xaplin Europa
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: EUA e Irã firmam acordo com 14 pontos para encerrar conflito
Fontes: BBC News Brasil · CNN Brasil