O estreito e a soberania
Análise · Clara Verdi Há gestos que são ao mesmo tempo burocracia e teatro.
Análise · Clara Verdi
Há gestos que são ao mesmo tempo burocracia e teatro. A lista divulgada por Teerã — quarenta e cinco navios-tanque, com seus nomes e bandeiras, proscritos por violarem “regras iranianas” no Estreito de Ormuz — é um desses atos. Não se trata apenas de uma ameaça logística, uma dor de cabeça para seguradoras e armadores. É um exercício de soberania sobre uma lâmina de água que o resto do mundo insiste em chamar de internacional. Uma performance de poder.
O poder, aqui, se manifesta na forma de um novo órgão com nome grandiloquente, a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, e de um post numa rede social. A ameaça é clara: multas, detenção, confisco. A lógica é viral: qualquer navio que se envolva em transferências de carga com os párias da lista será também um pária. Atinge os sauditas da Bahri, os emiráticos da ADNOC, os sul-coreanos da Sinokor. Alveja vizinhos e clientes, rivais e parceiros.
O contexto é o de uma guerra que já dura seis meses, com os Estados Unidos prometendo “as sanções mais severas da história” e o Irã respondendo que sua réplica será “devastadora”. Nesse diálogo de surdos, a lista de Teerã é um modo de materializar sua jurisdição. É a transformação de uma ameaça retórica em um procedimento administrativo. Enquanto o Secretário de Energia americano, Chris Wright, celebra no X o fluxo de oito milhões de barris diários garantido pela Marinha dos EUA, o Irã responde com o carimbo e a caneta. Um bloqueio naval se enfrenta não com mísseis, mas com regulamentação. É a guerra por outros meios.
Ainda que tudo isto possa se dissolver em bravata, o gesto iraniano expõe a fragilidade da ordem que rege os grandes fluxos do capital. Antes do conflito, vinte por cento do petróleo e do gás liquefeito do mundo passavam por ali. Ormuz não é apenas geografia; é a artéria aorta da economia industrial. Ao reivindicar o direito de legislar sobre quem passa e como passa, Teerã não disputa apenas navios. Disputa a própria definição de normalidade em um dos pontos mais nevrálgicos do planeta.
O que são, afinal, as “regras do Irã”? A publicação não detalha, deixando a ambiguidade pairar como um petroleiro ao largo da costa. Essa zona cinzenta é, ela mesma, uma ferramenta de poder. É a prerrogativa de decidir, caso a caso, o que é transgressão. E de lembrar a todos que, mesmo com a Sétima Frota ao alcance dos binóculos, aquela água ainda banha a sua costa.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Irã ameaça 45 navios com multas no Estreito de Ormuz
Fontes: CNN Brasil · UOL