Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

O Estreito como última moeda de troca do Irã

Análise · Clara Verdi Há uma lógica antiga por trás do que o Irã está fazendo com o Estreito de Ormuz — a lógica do mais fraco que não pode vencer…

O Estreito como última moeda de troca do Irã
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Há uma lógica antiga por trás do que o Irã está fazendo com o Estreito de Ormuz — a lógica do mais fraco que não pode vencer pelo braço e por isso muda as regras do jogo. Não é novidade. É, aliás, a gramática de quase toda resistência assimétrica do século XX. O que muda agora é o contexto em que ela é aplicada: o Eixo da Resistência — Hamas, Hezbollah, houthis — está militarmente enfraquecido ou desarticulado, e Teerã perdeu o instrumento que usou por décadas para projetar força sem expor o próprio território. O que sobrou foi a geografia.

Mehran Kamrava, da Universidade de Georgetown no Catar, articula com precisão o que já estava implícito na movimentação iraniana: o objetivo não é vencer uma guerra — Teerã "tem plena consciência" de que não pode enfrentar os EUA em condições de igualdade —, mas transformar o conflito militar em conflito econômico. O Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela decisiva do petróleo mundial, é o único ponto de pressão que o Irã ainda controla com alguma credibilidade. Bloqueá-lo, ou apenas ameaçar bloqueá-lo de forma convincente, não derrota os americanos. Mas eleva o custo da guerra a um patamar que Washington precisa calcular com cuidado.

É aqui que a resposta americana revela sua própria incerteza. Trump anunciou bloqueio naval e pedágio no estreito — uma linguagem transacional que diz mais sobre seu estilo do que sobre qualquer doutrina estratégica coerente. Os ataques a posições na costa sul do Irã, no Golfo Pérsico, indicam uma tentativa de neutralizar a capacidade iraniana de fechar o estreito antes que ela seja usada. Kamrava não descarta que isso evolua para uma invasão terrestre de ilhas como Kharg. Mas ele também admite que ninguém sabe exatamente como retirar do Irã o controle do estreito — "nem mesmo os estrategistas do Pentágono". Essa honestidade intelectual deveria ser sublinhada: estamos diante de um conflito cujo fim nenhum dos lados sabe desenhar.

O que torna a situação ainda mais instável é que tanto Irã quanto EUA querem encerrar o conflito, mas cada um insiste que isso aconteça nos seus próprios termos. É a definição clássica de um impasse. Omã, Catar e Paquistão tentam mediação, e há um memorando de entendimento já assinado — sinal de que os canais diplomáticos não foram completamente destruídos. Mas o que exatamente esse entendimento significará, segundo Kamrava, "ainda está indefinido".

O que se perde nessa cobertura, quando ela se reduz à contagem de ataques e à retórica de Trump, é a dimensão estrutural do que está acontecendo. O Irã não está jogando para vencer. Está jogando para não ser eliminado como ator regional relevante. A diferença entre essas duas apostas determina tudo — a duração do conflito, o espaço para negociação, e o tipo de acordo que eventualmente se tornará possível. Quem cobre isso como duelo de força perde o argumento central. O Estreito de Ormuz não é um alvo. É a última moeda de troca de um Estado que perdeu quase todas as outras.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Irã busca transformar conflito militar com EUA em guerra econômica

Fontes: g1 · BBC News Brasil

?qual pergunta está viva em você agora?