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O Estado que 65% dos brasileiros querem menos na vida

Análise · Luciano Aragão A fila do INSS no Amapá não é detalhe de rodapé.

O Estado que 65% dos brasileiros querem menos na vida
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Análise · Luciano Aragão

A fila do INSS no Amapá não é detalhe de rodapé. É o cenário em que o Datafolha registrou, pela primeira vez desde que começou a medir, que 65% dos brasileiros concordam mais com a ideia de depender menos do governo. Maior valor da série histórica. O número não surgiu do nada — foi construído lentamente por filas, por sistemas que travam, por benefícios que chegam depois do prazo ou não chegam.

É tentador ler a pesquisa como vitória ideológica do liberalismo econômico ou derrota eleitoral do campo progressista. Os dois lados já estão fazendo isso. Seria mais honesto ler como registro de uma experiência concreta: a do brasileiro que foi ao guichê, não foi atendido, voltou, pegou senha, perdeu dia de trabalho e saiu sem resposta. Ideologia é o que vem depois. A frustração é o que vem antes.

A série histórica do Datafolha sobre matriz ideológica existe justamente para capturar deslocamentos lentos de percepção. Quando um indicador atinge seu pico histórico, não está descrevendo um humor de semana — está descrevendo uma sedimentação. Algo que foi se acumulando. O dado de 65% é o tipo de número que atravessa governos. Não é opinião sobre Lula, sobre Bolsonaro ou sobre quem vier. É opinião sobre o Estado como instituição.

Aí está o ponto que as leituras partidárias tendem a perder. O brasileiro que quer depender menos do governo não está, necessariamente, pedindo menos Estado. Está, com frequência, pedindo um Estado que funcione quando acionado — e que, quando não funcionar, ao menos não seja o único caminho disponível. A demanda por menos dependência pode ser, paradoxalmente, uma demanda por mais eficiência. Não pela ausência do serviço público, mas pelo fim da sua exclusividade sobre uma vida que ele administra mal.

O dado mede insatisfação com o desempenho, não com o conceito. Confundir os dois é o erro mais confortável da análise política brasileira.

Para o governo federal, que nos últimos anos ampliou transferências, criou programas e elevou o gasto social, o número coloca uma questão desconfortável: expansão de cobertura não equivale a expansão de confiança. É possível que mais gente dependa do Estado e, ao mesmo tempo, mais gente queira depender menos dele. As duas coisas coexistem sem contradição lógica — e o Datafolha acaba de mostrar que coexistem também empiricamente.

O dado interessa menos como munição de debate e mais como diagnóstico de relacionamento. O brasileiro e o Estado brasileiro têm uma relação longa, obrigatória e desgastada. Sessenta e cinco por cento não é rejeição — é o percentual que gostaria, se pudesse, de passar menos tempo nessa relação. Não é novidade que o sentimento existe. É novidade que nunca tinha sido tão alto.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: 65% dos brasileiros querem depender menos do governo

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo