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O Estado paralelo vence licitações

Análise · Luciano Aragão O nome da operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro é preciso: Metástase.

O Estado paralelo vence licitações
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Análise · Luciano Aragão

O nome da operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro é preciso: Metástase. Na manhã de terça-feira, agentes buscavam desarticular uma quadrilha que roubava medicamentos de alto custo para tratamento de câncer. A carga era levada para um galpão no Complexo da Maré, com o beneplácito da facção Terceiro Comando Puro, e então o negócio mudava de natureza. Deixava de ser um assalto à mão armada e passava a ser uma empresa. Mais precisamente, 25 empresas de fachada.

Aqui, a crônica policial encontra o manual de direito administrativo. O material roubado, segundo as investigações, era reinserido no mercado por meio de processos licitatórios. As drogas, subtraídas com violência de um caminhão na estrada, voltavam ao sistema de saúde — público e privado — pela porta da frente, com nota fiscal e carimbo de vencedor em tomadas de preço. Um ciclo completo, do crime explícito ao crime de colarinho branco, em poucas etapas.

O faturamento do grupo, R$ 33 milhões em um ano, não espanta pela cifra, comum em operações do gênero. O que chama atenção é a estrutura. A investigação da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da Capital mapeou braços em São Paulo, Goiás e Pará, demonstrando uma capilaridade nacional que concorre em eficiência com distribuidoras farmacêuticas legalmente estabelecidas. Para escoar a mercadoria, sequestravam-se caminhões. Para legalizar o lucro, abriam-se CNPJs.

Ao deflagrar a Operação Metástase na Vila do João, uma das comunidades da Maré, a polícia foi recebida com barricadas em chamas. É o procedimento padrão para retardar o avanço do Estado. Menos visível, mas igualmente eficaz, é a barreira burocrática erguida pelo crime para se infiltrar no próprio Estado. O grupo que ateia fogo em pneus para proteger seu território é o mesmo que preenche formulários para fornecer a um hospital público.

O paciente oncológico que recebe um medicamento pode não saber, mas sua quimioterapia talvez tenha feito uma escala no varejo da droga e no atacado do crime organizado. A polícia alertou que o armazenamento inadequado compromete a eficácia dos remédios. O princípio ativo pode ter se perdido em algum galpão sem refrigeração. O princípio da moralidade administrativa, por sua vez, foi incinerado em alguma licitação fraudada.

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Polícia Civil do RJ deflagra operação contra roubo de remédios

Fontes: g1 · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.