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O espectro que a Europa não quer ver

Análise · Clara Verdi Dois mil trezentos e vinte e cinco mortos.

O espectro que a Europa não quer ver
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Dois mil trezentos e vinte e cinco mortos. O número, seco e brutal, chega da República Democrática do Congo e define o surto de Ebola como o mais letal da história do país. Ele ultrapassa a marca anterior, de 2018-2020, em um silêncio que, visto de Bruxelas ou de Paris, parece quase programado. A contabilidade dos corpos na periferia do mundo tem um ritmo próprio; não perturba o café da manhã nos bulevares. Mas a velocidade com que a morte se instala — dois mil óbitos em menos de três meses, o dobro do ritmo da epidemia que devastou a África Ocidental há uma década — diz mais sobre nós do que sobre o vírus.

A memória é curta, mas o método da catástrofe é antigo. A espécie do vírus que agora se alastra, a Bundibugyo, não tem vacina nem tratamento aprovado. É a tempestade perfeita: um agente viral para o qual a ciência ainda não tem resposta, atuando sobre um território onde a infraestrutura de saúde é frágil e a instabilidade política é a única constante. Não é uma fatalidade africana. É o resultado lógico de um sistema que extrai riquezas e deixa para trás o esqueleto do Estado.

O Congo não é uma abstração geográfica. É a fonte de minerais que alimentam os telefones e os carros elétricos que definem a modernidade europeia. E é também o laboratório onde se testa o limite da indiferença. Cada caso de Ebola não identificado, cada comunidade que resiste às equipes de saúde por desconfiança, cada vida perdida para a febre hemorrágica expõe a falha de uma ordem global que se pretende conectada, mas só nos momentos que lhe convêm. A conexão é para os bens, não para os males.

A letalidade crescente, que saltou de 20% para perto dos 50% em poucos meses, não é apenas um dado epidemiológico. É um veredito. O surto, este já o 17º no Congo, se tornou uma crônica da normalização do desastre. A Organização Mundial da Saúde emite seus alertas, as ONGs mobilizam suas equipes exaustas, e os governos europeus prometem ajudas que nunca cobrem o custo da própria ausência. O corpo que cai em Kinshasa pesa menos que a cotação do cobalto.

Que imagem ficará desta epidemia quando ela inevitavelmente sair do noticiário, substituída pela próxima urgência? Talvez a de um trabalhador da Cruz Vermelha se desinfetando, uma silhueta anônima contra um céu sem cor. Ou talvez nenhuma. Afinal, por que olhar para aquilo que acusa nosso próprio modo de vida?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Ebola na RD Congo tem 2.325 mortes e é o mais letal da história

Fontes: CNN Brasil · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.