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Brasil empata em partida que não merecia terminar empatada

Análise de Marcos Tibúrcio sobre a partida que terminou 1 a 1 e revelou muito mais que o placar.

Brasil empata em partida que não merecia terminar empatada

Análise · Marcos Tibúrcio

Há partidas que terminam em 1 a 1 e dizem, na verdade, muito mais do que isso. O empate do Brasil com Marrocos é uma dessas. Não pelo placar, que é neutro e democrático por natureza, mas pelo que o vestiário admitiu depois: a seleção escapou. A palavra é dura, mas é honesta — e honestidade, no futebol de Copa, tem o valor do ouro.

A sensação de alívio que se instalou entre os atletas brasileiros após o apito final diz tudo o que o placar finge não dizer. Alivio não é sentimento de quem dominou uma partida. É sentimento de quem saiu de um lugar onde não queria estar. O Brasil esteve lá — dentro do sufoco, dentro da dúvida — e saiu de lá sem a derrota, mas também sem a certeza de que sabe o que está fazendo nesta Copa.

Marrocos não é surpresa para ninguém que acompanhou o Qatar 2022. A seleção marroquina chegou às semifinais há quatro anos, eliminou potências, jogou com organização tática que poucos continentes souberam produzir. Subestimá-la seria ingenuidade; ignorar o que ela representa seria desonestidade intelectual. O Brasil, aparentemente, foi a campo sabendo disso nos documentos, mas não nos pés.

O futebol pune a arrogância com uma pontualidade que os relógios suíços invejam.

O que preocupa não é o 1 a 1 em si. Empates acontecem, até os melhores times do mundo constroem campanhas vencedoras sobre alicerces que rangem em algum momento. O que preocupa é o diagnóstico que o próprio elenco ofereceu: admitiram que a equipe poderia ter perdido. Isso é raro. Jogadores de seleção, especialmente a brasileira, raramente apontam a própria fragilidade com essa clareza logo após um jogo. Quando o fazem, é porque o espelho não deixou outra saída.

A fala sobre humildade — o famoso calçar as sandálias — surge agora como resposta ao susto, não como postura construída ao longo do tempo. Humildade de véspera de jogo contra o Haiti tem outro nome: urgência. O Brasil não pode chegar às fases decisivas desta Copa do Mundo dependendo do adversário ser mais fraco para encontrar seu futebol. Copa não funciona assim. A partir de certo ponto, não há mais adversário fraco.

Há uma geração de jogadores nessa seleção com qualidade individual fora de discussão. O problema nunca foi talento. O problema, que reaparece com a constância de uma estação do ano, é a transformação desse talento em jogo coletivo, em sistema, em equipe que se reconhece quando o jogo fica feio. Contra Marrocos, esse reconhecimento tardou. Contra adversários que virão nas fases seguintes, tarde demais pode ser definitivo.

O Brasil está vivo nesta Copa. Mas estar vivo e estar bem são coisas diferentes — e essa diferença, ignorada agora, costuma se cobrar nos momentos em que não há mais segundo tempo.

Marcos Tibúrcio — Chefia de Esporte, Xaplin

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil busca humildade após empate com Marrocos

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL