Brasileiros sentem fadiga crônica e corpo exige repouso
Oito em cada dez brasileiros relatam exaustão. A fadiga, não é uma percepção vaga, mas um mal-estar generalizado.
Análise · Dra. Camila Torres
Oito em cada dez brasileiros se sentem cada vez mais cansados. Não é uma percepção vaga, um mal-estar geracional. É um dado de pesquisa, frio como um prontuário, mas que pulsa com a exaustão de quem trabalha seis dias para folgar um. O debate sobre o fim da escala 6x1, que avançou na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, costuma ser enquadrado nas planilhas de impacto no PIB e na inflação. Uma discussão legítima, mas que ignora o principal: o custo biológico de um cronograma que nega ao corpo seu tempo de reparo.
O levantamento do Instituto Locomotiva, realizado com 1.030 pessoas, funciona como um extenso exame clínico da população trabalhadora. Os sintomas são claros e disseminados. Para 67% dos ouvidos, a jornada piora a saúde mental. Para 62%, a saúde física. Não são queixas isoladas, mas um diagnóstico coletivo de um modo de vida que se tornou patogênico. O sistema nervoso e o sistema imunológico não distinguem um prazo de entrega de um predador na savana. Ambos disparam cortisol. O problema é que o predador vai embora; a semana de seis dias, não.
Atendi por uma década no Sistema Único de Saúde. Vi a sobrecarga crônica se manifestar em hipertensão, gastrite, crises de ansiedade e depressão. A queixa muitas vezes vinha disfarçada: uma dor de cabeça que não cedia, uma insônia persistente. Era o corpo sinalizando o esgotamento que a rotina normalizava. A pesquisa dá números a essa experiência clínica: 71% dos entrevistados afirmam que a jornada 6x1 dificulta a manutenção de hábitos saudáveis. O tempo para cozinhar, para caminhar, para não fazer nada — todos esses são fatores de proteção para a saúde, tão concretos quanto a ausência de um vírus.
A discussão parlamentar sobre a PEC 221/2019, que propõe reduzir a jornada para 40 horas semanais com duas folgas, ainda se debruçará sobre os modelos econômicos. É uma parte necessária do processo. Mas é uma leitura incompleta se não pesar o que já se sabe do ponto de vista da saúde pública. A exaustão não é apenas um sentimento. É um fator de risco. O dado de que 89% das mulheres sentem que sacrificam saúde e lazer pela renda aponta para uma vulnerabilidade específica, que acumula o fardo do trabalho remunerado com o não remunerado.
Esta análise, por certo, parte de uma perspectiva da saúde. Outros, com igual legitimidade, olharão para os mesmos fatos e verão os entraves à produtividade ou a complexidade da legislação trabalhista. São peças do mesmo quebra-cabeça.
Resta saber se, ao final, a conta que faremos incluirá o custo dos corpos que adoecem ou apenas o dos balanços que podem encolher. O que o cansaço de 83% da população nos pergunta?
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: CCJ do Senado aprova PEC que acaba com escala 6x1
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.