O coração da Europa cabe em dois milhões
Análise · Clara Verdi Dois milhões de euros. A cifra, anunciada por Ursula von der Leyen em um post na rede social X, é a medida do apoio da União…
Análise · Clara Verdi
Dois milhões de euros. A cifra, anunciada por Ursula von der Leyen em um post na rede social X, é a medida do apoio da União Europeia à Colômbia. É a tradução monetária da frase que a precedeu em dois dias: “o coração da Europa está com o povo da Colômbia”. O coração, então, vale o que custa. E custa pouco.
Para o bloco que se orgulha de sua burocracia eficiente, a resposta à tragédia colombiana — um terremoto de magnitude 7,4, mais de duzentos mortos sob os escombros — é um exercício de Relações Públicas protocolar. Ativa-se o Mecanismo de Proteção Civil, mobiliza-se o serviço de satélite Copernicus. Despacha-se o dinheiro. A máquina funciona. Mas a alma da coisa, se é que existe, se perde na conversão.
Não se trata de medir a compaixão em moeda corrente. Trata-se de ler o gesto. A Europa, que já foi o centro de um mundo que ela mesma inventou, hoje projeta seu poder com ferramentas que domina: o regulamento, o fundo de ajuda, o satélite que mapeia a destruição a milhares de quilômetros de distância. É um poder asséptico, remoto. Uma solidariedade de controle remoto, feita de um gabinete em Bruxelas para uma tela em Pereira ou Cali.
A janela "de ouro" para encontrar sobreviventes, dizem os especialistas, é de 48 a 72 horas. O anúncio da presidente da Comissão Europeia chegou quando essa janela começava a se fechar. As equipes de resgate colombianas corriam contra o tempo; a engrenagem europeia, em seu tempo próprio, processava a ajuda. O contraste está aí, entre a urgência da vida soterrada e a cadência da diplomacia humanitária.
O dinheiro chegará. Mas o que fica não é a cifra. É a imagem de uma Europa que oferece seu coração em uma declaração e seu apoio em um orçamento modesto, cumprindo um papel que lhe cabe, mas sem o afeto desordenado que as grandes tragédias parecem exigir. O que resta, ao fim do dia, é a pergunta sobre o que significa ser uma potência humanitária quando a humanidade parece vir depois do mecanismo.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: União Europeia envia 2 milhões de euros para a Colômbia
Fontes: CNN Brasil · UOL