O cimento não esquece
Análise · Marcos Tibúrcio A Fifa, com a precisão de um fiscal de alfândega, distribuiu os jogos. Seis da primeira fase, um das oitavas.
Análise · Marcos Tibúrcio
A Fifa, com a precisão de um fiscal de alfândega, distribuiu os jogos. Seis da primeira fase, um das oitavas. Sete para o Beira-Rio, sete para o Mané Garrincha, outros sete para a Arena Pernambuco. O futebol feminino, enfim, vai rodar o Brasil numa Copa do Mundo. A tabela, fria, é apenas o mapa de uma peregrinação antiga. É o cimento que guarda a história.
No caso do Internacional, o cimento lembra de tudo. O clube gaúcho, com o anúncio, se torna uma anomalia no nosso futebol de estádios públicos e arenas concessionadas: será o único dono de sua própria casa a ver o mundo jogar nela por três vezes. Primeiro, em 1950, quando o Beira-Rio era só um sonho úmido na beira do Guaíba e o clube ofereceu o velho Estádio dos Eucaliptos. Depois em 2014, já no gigante moderno. E agora, em 2027.
O Maracanã, claro, também viu as três eras. Mas o Maracanã não tem dono; o Maracanã pertence à memória coletiva, ao Estado, ao eco de cada gol e de cada vaia que já abalou sua estrutura. O Beira-Rio é diferente. É patrimônio de um clube, a casa de uma só gente que, de geração em geração, viu o concreto subir e o mundo descer ali para jogar bola.
Para receber a décima edição do torneio, a exigência vem de Zurique. A Fifa, desde 2018, pede gramados híbridos. Uma costura de fibras sintéticas no tapete natural. A tecnologia tem nome, "stitching", e tem preço. No Beira-Rio, a solução autorizada pela entidade é uma versão mais modesta: uma tela de fibra elástica sob a grama. O espetáculo global se ajusta à realidade local. Nem sempre o drama precisa do palco mais caro, apenas de um palco que aguente o tranco.
A discussão pode ser sobre o legado destas arenas, muitas delas erguidas para 2014 e subutilizadas desde então, como as de Brasília e Pernambuco. Uma leitura honesta admitiria que uma Copa não redime gestões ou apaga os custos passados. Mas há outra história sendo contada. Uma que não está na planilha de custos, mas na arquibancada. É a história do concreto que permanece. Ele viu Ghiggia, viu Messi, e agora se prepara para ver as herdeiras de Olga Carmona, a espanhola que decidiu a última final.
Abertura e final serão no Maracanã, como manda a tradição e o bom senso. Mas a alma de uma Copa não vive só na decisão. Ela se espalha pelo país, respira em cada aeroporto, em cada sotaque que tenta gritar gol. E se instala em estádios que, por um mês, deixam de ser a casa de um só para se tornarem a casa de todos. Quantas memórias novas cabem num cimento de 1950?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge