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O chute que rasgou o roteiro na Granja

Análise · Marcos Tibúrcio Há lugares onde o futebol pesa mais. A Granja Comary, em Teresópolis, é um deles.

O chute que rasgou o roteiro na Granja
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Há lugares onde o futebol pesa mais. A Granja Comary, em Teresópolis, é um deles. Pesa a lembrança dos que ali treinaram para a glória e dos que voltaram para o luto. É um palco de preparação, de ensaio, de suor metódico. E foi ali, no domingo, que um lateral chamado Marcos Pesseti, um garoto do Athletico, decidiu que o roteiro da partida estava burocrático demais.

O Brasil vencia a Venezuela, num amistoso que serve para testar esquemas e calibrar vontades. Jogava com um a menos. O manual do futebol, o catecismo que se ensina desde a escolinha, manda tocar de lado, gastar o relógio, segurar o resultado. Mas Pesseti, de sua lateral, viu algo que não estava na prancheta do treinador. Viu um goleiro venezuelano adiantado, flutuando fora de seus domínios, e viu um vasto campo verde entre ele e a rede.

A bola chegou mansa. O prudente tocaria para trás. O correto buscaria o ponta. Pesseti fez o que fazem os que não pedem licença. Ergueu a cabeça e, como ele mesmo confessou, pensou: “Vai daqui mesmo”. Não foi um cálculo de engenheiro. Foi um arroubo, um gesto de pura intuição de arquibancada plantado no gramado sagrado. O chute foi uma parábola perfeita, um arco que desafiou a lógica e humilhou a distância. Um gol.

O lance, por si só, diz pouco sobre o futuro do rapaz ou da Seleção Sub-17 que irá ao Catar. Um gol do meio-campo pode ser sorte, um lampejo que não se repete. Mas o que ele revela é uma fagulha de desobediência, uma recusa do óbvio que anda tão rara no futebol moderno, pasteurizado por GPS e estatísticas de passes laterais. É a prova de que, mesmo em meio ao trabalho mais disciplinado, há espaço para o imponderável. Para o instante em que um jogador decide ser o protagonista de sua própria peça, sem esperar a deixa do diretor.

Contra a mesma Venezuela, dias antes, o Brasil jogara com um homem a mais. Agora, com um a menos, foi melhor. Talvez porque a adversidade, por vezes, obrigue a inventar saídas que a vantagem numérica acomoda. O chute de Marcos Pesseti não foi a solução tática para a inferioridade numérica. Foi outra coisa: um grito de que o futebol ainda pertence aos que se atrevem a tentar o impossível.

Será este o espírito que veremos no Mundial? Ou voltaremos à segurança do passe curto quando a camisa pesar de verdade?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Lateral do Athletico faz gol do meio-campo na Seleção Sub-17

Fonte: ge