O céu, o telhado e o caixa de Arroio Grande
Análise · Luciano Aragão Na prefeitura de Arroio Grande, município de 18 mil habitantes no sul gaúcho, o temporal danificou o telhado do prédio…
Análise · Luciano Aragão
Na prefeitura de Arroio Grande, município de 18 mil habitantes no sul gaúcho, o temporal danificou o telhado do prédio público. O mesmo vendaval destelhou outras 16 residências na cidade e, em todo o Rio Grande do Sul, já soma danos em 21 municípios. O detalhe sobre a cobertura do executivo municipal é menos uma alegoria e mais um memorando: a conta da natureza, quando chega, não distingue o caixa do cidadão do caixa do estado.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) descreve o fenômeno com a frieza técnica que lhe cabe: um centro de baixa pressão na Argentina, um anticiclone no Atlântico, um Jato de Baixos Níveis intensificado. Para os moradores de Santa Maria, que viram ventos de 90 km/h e o prejuízo se espalhar por 22 casas, a explicação meteorológica tem menos utilidade que uma lona plástica. Para as dez pessoas desalojadas em Alegrete, São Borja e Cerro Branco, o problema é mais imediato que a variação de temperatura.
Enquanto a burocracia da Defesa Civil Estadual do Rio Grande do Sul cataloga os estragos e emite seus alertas – há 36 municípios na área de risco severo –, a política real se move em outra velocidade. Prefeitos calculam o custo dos reparos. O governo estadual prepara-se para o ritual de decretar emergências e pedir recursos. E em Brasília, onde os ventos são de outra ordem, a tragédia gaúcha vira mais um número na longa planilha de despesas extraordinárias que pressionam o orçamento federal.
A previsão de chuvas que podem chegar a 300 milímetros em menos de uma semana transforma o que hoje são danos pontuais em potencial desastre de grande escala. Cada telha arrancada em Pinheiro Machado, cada árvore caída em Gramado, é um dígito a mais no passivo que recairá sobre o poder público.
O aviso laranja do Inmet vale para o oeste, centro e sul gaúcho. O alerta de Brasília, porém, é permanente e vale para o país inteiro: eventos climáticos extremos deixaram de ser uma rubrica eventual para se tornarem um custo fixo. O telhado da prefeitura de Arroio Grande é só a primeira parcela.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Mais de 20 cidades do RS registram danos por temporais
Fontes: Agência Brasil · CNN Brasil