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Polarização impede centro na disputa presidencial

Polarização eleitoral dificulta formação de chapa de centro na disputa presidencial brasileira.

Análise · Beatriz Fonseca

A menos de um mês do primeiro turno, uma fotografia da disputa presidencial mostra dois candidatos separados por um único ponto percentual. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 40% das intenções de voto; Flávio Bolsonaro (PL), com 39%. Os números são do instituto Palver, em pesquisa realizada entre 4 e 7 de setembro, com 5.000 eleitores ouvidos pela internet e margem de erro de 2,5 pontos. É um retrato de um país que, nos últimos anos, aprendeu a organizar sua política em dois campos definidos. Campos que agora se enfrentam com nomes diferentes, mas com o mesmo lastro familiar.

O dado mais estrutural da pesquisa, na minha leitura, não é a proximidade entre os líderes, mas o espaço ocupado por quem tenta romper essa dualidade. Somados, quatro outros nomes — Renan Santos (Missão), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) — alcançam 17%. O candidato mais próximo do pelotão da frente, Renan Santos, registra 11%, um patamar de um dígito se descontada a margem de erro. Os dois governadores de estados relevantes, Caiado e Zema, marcam 1% cada. Parece um teto baixo para projetos que se apresentam como alternativa.

Desde 2018, e talvez antes, o debate público se acostumou a procurar o candidato da chamada “terceira via”. Partidos que já ocuparam a Presidência da República se articularam, testaram nomes e, ao final, viram suas intenções de voto espremidas entre duas forças com alta capacidade de mobilização. Os números da Palver sugerem que, em 2026, esse cenário pode se repetir. A novidade seria o protagonismo de um nome que, embora eleito senador em 2018, nunca disputou um cargo majoritário nacionalmente.

A mesma pesquisa aponta outro elemento de continuidade: os índices de rejeição. Lula (54%) e Flávio Bolsonaro (49%) são os mais rechaçados pelo eleitorado, segundo o levantamento. Uma parcela significativa do país, portanto, votaria no primeiro turno para evitar a vitória do outro. É uma dinâmica eleitoral que se alimenta da negação, não da construção de um projeto afirmativo. É claro que uma pesquisa é um instantâneo e não uma sentença. Fatos novos podem alterar este quadro.

Ainda assim, os dados oferecem uma hipótese de trabalho: o centro político, como o conhecemos na redemocratização, um espaço de moderação e articulação partidária capaz de vencer eleições, talvez tenha deixado de ser um lugar para se chegar ao poder. Tornou-se, quem sabe, apenas um destino para onde se vai depois de eleito.

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Pesquisa Palver aponta Lula (40%) e Flávio (39%) em empate técnico

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL