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O centro móvel da política brasileira

Análise · Beatriz Fonseca A eleição de 2026 será decidida, como tantas outras antes dela, pela capacidade de um candidato falar à maioria.

O centro móvel da política brasileira
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Análise · Beatriz Fonseca

A eleição de 2026 será decidida, como tantas outras antes dela, pela capacidade de um candidato falar à maioria. E a maioria tem nome e renda. Chama-se classe C, abarca 53% da população e vive com R$ 3,5 mil por família, em média. É o que descreve o pesquisador Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, no lançamento do seu livro “Brasil da maioria”. A descrição é menos um retrato e mais um mapa do terreno onde se dará a disputa.

A tese de Meirelles desfaz uma dicotomia que costuma organizar o debate público. Para esse eleitorado, a questão não é um Estado maior ou menor. A questão é um Estado que funcione. O que pode parecer uma obviedade, na verdade, reorienta a discussão. Desloca o eixo do tamanho da máquina para a qualidade da entrega. Um serviço público melhor, sem burocracia. É uma demanda concreta, com pouco espaço para abstrações ideológicas.

Esse grupo social tem uma memória específica. Meirelles situa o ponto de virada no Plano Real, de 1994, quando o fim da hiperinflação permitiu que o horizonte das famílias se estendesse para além do fim de semana. O planejamento se tornou possível. Depois, os programas de distribuição de renda criaram um ciclo de consumo que moveu a economia a partir da base. A velocidade dessas conquistas, no entanto, diminuiu. Segundo o pesquisador, o resultado é um anseio por mais.

O sonho que mudou de tamanho

A natureza desse anseio também se transformou. O sonho do carro zero, um símbolo de ascensão social de outro período, deu lugar ao investimento em pequenos negócios. É uma troca sintomática. Sugere a substituição de um desejo de consumo por um projeto de autonomia. A estabilidade, para essa fatia da população, parece residir menos na posse de bens e mais na capacidade de gerar a própria renda. Uma mudança sutil, mas com implicações profundas para qualquer programa de governo.

Na minha leitura, o desafio das candidaturas presidenciais será traduzir essa demanda por funcionalidade e autonomia em uma proposta de governo crível. O debate sobre o tamanho do Estado, embora relevante para a organização fiscal, pode soar distante para quem depende do posto de saúde e da escola pública. A eficácia, por outro lado, é uma experiência diária. É a percepção de que o imposto pago retorna, ou não, em serviço.

O que ainda não está claro é qual narrativa política conseguirá capturar essa demanda sem recorrer aos velhos enquadramentos. A classe C é o centro do eleitorado brasileiro. Mas o centro é, por definição, um lugar que se move. A questão que definirá 2026 talvez não seja qual candidato se diz de esquerda ou de direita, mas qual deles entenderá primeiro para onde esse centro se moveu.

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Classe C, maioria no Brasil, busca Estado que funcione, diz Meirelles

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.