O candidato, a PF e a banda de rock
Análise · Luciano Aragão A primeira candidatura à Presidência da República de 2026 foi oficializada não em um ginásio lotado ou auditório…
Análise · Luciano Aragão
A primeira candidatura à Presidência da República de 2026 foi oficializada não em um ginásio lotado ou auditório climatizado, mas em uma convenção online, restrita. O gesto de Renan Santos, ativista político e fundador do partido Missão, antecipou em semanas o calendário dos adversários por uma razão que ele descreve como de “sobrevivência”. Citando ameaças de facções criminosas de três estados, o candidato apressou o rito para se enquadrar nas regras de proteção da Polícia Federal, ativadas na mesma segunda-feira.
O resultado é um paradoxo calculado. Ao se tornar o primeiro postulante oficial ao Planalto, Renan Santos, 42 anos, garante acesso a uma estrutura de segurança orçada em R$ 95 milhões, que mobiliza centenas de agentes, blindados e tecnologia antidrone. O ativista que se notabilizou nas ruas ganha a escolta do Estado que promete revolucionar.
A narrativa da urgência, no entanto, contrasta com o restante do cronograma da campanha. O evento público de lançamento, com a apresentação do “Livro Amarelo” de diretrizes de governo, segue marcado para 1º de agosto. A formalidade foi adiantada; a festa, não. O movimento assegura a proteção da PF sem queimar a largada da exposição midiática, transformando o aparato federal em parte da coreografia da pré-campanha.
A chapa desenha o perfil do eleitorado que o Missão busca. O vice é o tenente-coronel da reserva da Brigada Militar gaúcha Aroldo Medina, 62 anos, um veterano de disputas eleitorais por siglas como PL, PFL e o extinto PRP. Um aceno ao eleitorado militar e conservador, montado sobre uma plataforma que promete tirar o PT do poder e reduzir a dependência do Bolsa Família.
A campanha de Renan Santos começa onde sua vida pública recente se manifesta: na fronteira entre a política institucional e o conflito permanente. Na semana que antecedeu a oficialização, o candidato viu a casa de shows Audio Rebel, no Rio, cancelar uma apresentação de sua banda de indie rock, a Limão Rosa, por “razões políticas”. Santos, que é vocalista e guitarrista do grupo, classificou o episódio como “sabotagem” da esquerda.
A resposta foi um show gratuito em outro bar, que reuniu cerca de 500 pessoas. Agora, ele troca o palco de Botafogo pelo palanque nacional, protegido pela mesma PF que investiga e prende os criminosos que, segundo ele, o ameaçam. Para um candidato que promete um “governo revolucionário”, a primeira ação de campanha foi recorrer à estrutura mais tradicional do poder.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Missão oficializa candidatura de Renan Santos à Presidência
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo