O campeonato da prancheta e da arquibancada
Análise · Marcos Tibúrcio Enquanto a bola pune os desatentos nos gramados da América do Norte, no Brasil se joga um outro campeonato, mais silencioso…
Análise · Marcos Tibúrcio
Enquanto a bola pune os desatentos nos gramados da América do Norte, no Brasil se joga um outro campeonato, mais silencioso e, para muitos, tão cruel quanto. É a peleja da janela de transferências, disputada nos escritórios e refletida diretamente na tela do celular. O mercado do Cartola reabriu, e com ele a ilusão de que qualquer um, com a combinação certa de nomes e alguma sorte, pode ser o dono do escrete perfeito. É a vingança do torcedor contra o técnico que insiste no seu volante de estimação.
Neste returno de 2026, a dança das cadeiras tem coreografias dignas de nota. O Fluminense, por exemplo, vai a campo com um roteiro que faria inveja a qualquer dramaturgo. Traz de volta o zagueiro Thiago Silva, um monumento vivo, e para o ataque busca Hulk, que abandona o altar onde era deus em Minas Gerais. É uma aposta na memória afetiva e na força bruta. Nas Laranjeiras, a esperança é que a soma de um ídolo que retorna e outro que se reinventa baste para mudar o destino de um campeonato.
Já o Atlético Mineiro, órfão de seu super-herói, busca no zagueiro Léo Duarte uma solidez que o grito de gol não oferece. Cada clube joga com as cartas que tem — ou com as que consegue comprar no meio do jogo. O Bahia, num movimento que espelha a ciranda do futebol, despacha o lateral Gilberto para Curitiba, e o Athletico o recebe. Peças que se movem num tabuleiro onde a única certeza é que a escalação de domingo passado já é peça de museu.
O mais curioso, porém, é o silêncio de alguns. Bragantino, Botafogo, Corinthians, Flamengo e Santos, até aqui, olham o baile da janela do lado de fora. Confiam no que têm em casa, talvez por convicção, talvez por falta de outra opção. Uma aposta arriscada no futebol moderno, que devora elencos e não perdoa quem para no tempo.
Enquanto a Copa do Mundo nos entrega a glória e a tragédia em 90 minutos, o Cartola oferece um drama particular. É o técnico da arquibancada montando seu time, escolhendo entre o veterano que chega e o garoto que parte, apostando suas parcas cartoletas no nome que, ele jura, vai mudar tudo. É o futebol real, com suas limitações e suas surpresas, transformado em planilha. Mas que, no fundo, ainda depende da mesma coisa: de um homem, uma bola e a teimosia de acreditar que, na próxima rodada, tudo será diferente.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Mercado do Cartola reabre para 2º turno do Brasileirão 2026
Fonte: ge