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O calor que os EUA exportam há décadas volta para casa

Análise · Clara Verdi Nova York está sufocando. Philadelphia está sufocando.

O calor que os EUA exportam há décadas volta para casa

Análise · Clara Verdi

Nova York está sufocando. Philadelphia está sufocando. O corredor do Nordeste americano — aquela faixa densa de cidades, infraestrutura velha e desigualdade de renda que vai de Boston a Washington — está sob calor e umidade em níveis que os meteorologistas classificam como perigosos. A onda que já castigava o Centro-Oeste se intensifica agora exatamente onde o país concentra seu poder simbólico e suas contradições mais visíveis.

Vale parar aqui e recusar a narrativa do evento climático como anomalia. O que está acontecendo no Leste dos Estados Unidos não é uma surpresa geofísica — é uma consequência que chegou com endereço. A América passou décadas sendo o maior emissor histórico de carbono per capita do planeta, negociando acordos climáticos como se fossem concessões voluntárias a países menos sérios, e saindo deles quando conveniente. O calor que hoje sufoca Nova York tem genealogia política precisa.

Mas o que me interessa aqui não é a ironia fácil — o poluidor colhe o que planta — porque essa narrativa também mente. Quem está sofrendo nas cidades americanas não são os arquitetos da desindustrialização verde ou os lobistas do petróleo. São os moradores dos bairros sem árvores, sem ar-condicionado, sem seguro saúde para tratar o golpe de calor de uma criança. A geografia do sofrimento climático dentro dos próprios Estados Unidos segue a mesma lógica que rege o sofrimento climático global: quem menos causou, mais paga.

O calor extremo mata mais silenciosamente que o furacão. Não derruba pontes para fotografar. Derruba idosos em apartamentos fechados, trabalhadores em canteiros sem sombra, sem que a cena produza a imagem que entra no noticiário.

A Europa observa com uma mistura de reconhecimento e desconforto. Reconhecimento porque já viveu isso — o verão europeu de 2003 matou mais de setenta mil pessoas, e o continente levou anos para incorporar a lição em políticas de saúde pública, urbanismo e gestão de emergências. Desconforto porque sabe que sua própria infraestrutura ainda é frágil, que as ondas de calor estão se tornando mais frequentes e mais intensas também aqui, e que a cooperação climática transatlântica depende de um parceiro americano que ainda não decidiu, de forma estável, se acredita no problema.

A intensificação da onda no Nordeste americano importa politicamente além do imediato. Os Estados Unidos estão às vésperas de um ciclo eleitoral em que a política climática é, de novo, moeda de troca partidária. Eventos extremos em cidades visíveis — não no interior do Midwest, mas em Manhattan, em Boston — têm historicamente o poder de deslocar opinião pública de forma que relatórios do IPCC jamais conseguiram. Se isso acontecerá desta vez, não sei. Mas o calor chegou onde a câmera aponta. E isso, ao menos, é diferente.

Clara Verdi é correspondente Europa da Xaplin.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Onda de calor intensifica-se no Nordeste dos EUA

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.