O Brasil saiu. A Globo apagou a luz
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma lógica cruel que o futebol ensina cedo a quem o acompanha de perto: quando a seleção vai embora, vai embora tudo.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma lógica cruel que o futebol ensina cedo a quem o acompanha de perto: quando a seleção vai embora, vai embora tudo. O Brasil caiu nas oitavas de final desta Copa do Mundo e a Globo, emissora que há décadas coloca o torneio dentro da sala de estar do país, já trata de repatriar parte da equipe enviada aos Estados Unidos, ao México e ao Canadá. A cobertura continua — mas menor, mais enxuta, com os holofotes rebaixados.
É uma decisão de negócio, e ninguém precisa finjir que não é. A Copa sem o Brasil é, para a televisão brasileira, um produto diferente. Não necessariamente inferior em qualidade — às vezes superior, porque o olho se abre para o resto do mundo —, mas diferente em audiência, em receita publicitária, em calor doméstico. O telespectador que ligava a TV por instinto, porque o Brasil jogava, agora precisa de motivo. E motivo é outra coisa.
O que chama atenção, porém, não é a decisão em si. É a velocidade com que ela expõe a fragilidade estrutural da relação entre o futebol brasileiro e o seu torneio maior. A Copa do Mundo é o evento mais assistido do planeta. Tem Argentina, tem França, tem Inglaterra, tem um continente africano inteiro representado em campo, tem histórias que atravessam fronteiras de língua e de bandeira. Mas para a Globo — e, se formos honestos, para boa parte do público — o torneio tinha um protagonista inegociável. E esse protagonista foi embora nas oitavas.
A eliminação precoce do Brasil não é apenas uma derrota esportiva. É a ruptura do contrato tácito entre a seleção e o país — o acordo não escrito de que, chegando junho, o Brasil estaria lá até o fim.
Isso deveria pesar mais do que pesa. Uma seleção eliminada nas oitavas de final de uma Copa do Mundo é, em qualquer análise honesta, um fracasso. Não de um jogador, não de um técnico isoladamente — de um projeto, de uma estrutura, de escolhas feitas ao longo de anos. O fato de que a principal emissora do país já começa a desmontar sua operação antes mesmo das quartas de final é o termômetro mais claro disso. Não há cobertura reduzida quando o time está vivo.
A arquibancada, essa personagem que nunca mente, já sabe disso. O brasileiro que assistia ao jogo com a camisa amarela vai continuar vendo futebol — porque futebol é maior do que qualquer seleção —, mas vai assistir de outro jeito. Com aquela leveza melancólica de quem assiste a uma festa depois que o aniversariante foi embora. O torneio segue. A Globo segue, com equipe menor. E o Brasil assiste de longe a um Mundial que começou como seu e terminou, nas oitavas, pertencendo a outros.
Marcos Tibúrcio — Chefe de Esporte, Xaplin
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Globo reduz equipe na Copa do Mundo após eliminação do Brasil
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL