Brasil torce contra e revela sobre si mesmo
Análise · Marcos Tibúrcio Há um prazer específico, quase inconfessável, que o torcedor brasileiro cultiva com o mesmo carinho que guarda…
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um prazer específico, quase inconfessável, que o torcedor brasileiro cultiva com o mesmo carinho que guarda uma lembrança de infância: ver a Alemanha sair de uma Copa do Mundo antes da hora. Na segunda-feira, dia 29, quando o Paraguai eliminou os alemães nos pênaltis, as ruas não celebravam apenas a classificação do Brasil às oitavas — celebravam também a queda do outro. E isso, por si só, merece exame.
Não é simples rivalidade esportiva. Rivalidade esportiva se constrói em campo, em disputa direta, em histórico de finais e semifinais. O Brasil e a Alemanha se enfrentaram poucas vezes em Copas. O que existe aqui é outra coisa — é memória afetiva convertida em cicatriz. É Belo Horizonte, julho de 2014, sete a um, e o silêncio de um Estádio Mineirão que parecia ter engolido o próprio país. Uma derrota não apagada pelo tempo, mas guardada como um nó que ainda não se desfez. A Alemanha não é a rival — é o arquivo vivo da maior humilhação do futebol brasileiro moderno.
Doze anos depois, a seleção alemã se despede de mais uma Copa precocemente, desta vez pelos pênaltis diante do Paraguai. E o Brasil, que ainda lutava pela própria classificação, encontrou na derrota alheia um alívio coletivo. Não é bonito. Mas é humano — e o futebol, quando é honesto, nunca pretendeu ser apenas bonito.
O problema começa quando a festa da eliminação do adversário vale mais do que o jogo da própria seleção. Quando torcer contra vira estratégia emocional, o torcedor terceiriza a esperança.
Há um risco nessa dança. O Brasil que celebrou a queda alemã na noite de segunda é o mesmo que chegou às oitavas de forma "suada" — a palavra escolhida pela imprensa, e que não é elogio disfarçado. Uma classificação suada, num grupo que não era dos mais exigentes do torneio, é um alerta com roupa de festa. A seleção não convenceu; sobreviveu. E sobreviver pode ser suficiente na fase de grupos, mas a Copa, a partir das oitavas, cobra outra moeda.
A Alemanha, por mais que o imaginário brasileiro queira o contrário, não era mais o monstro de Belo Horizonte. Era uma seleção em reconstrução, que chegou ao Paraguai numa eliminatória de pênaltis — o território mais democrático e mais cruel do futebol. Torcer pela queda deles é legítimo enquanto desafogo emocional. Tomá-la como sinal de que o Brasil está bem seria um erro de leitura perigoso.
A Copa de 2026 ainda está no começo. O Brasil avançou, e isso importa. Mas a próxima fase não vai perguntar o placar da Alemanha contra o Paraguai. Vai perguntar o que o time de Dorival — ou quem quer que esteja no banco — tem a oferecer quando o espaço fechar e a exigência subir. Nessa hora, a festa de segunda não aquece ninguém.
Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasileiros celebram eliminação da Alemanha na Copa do Mundo
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil