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Brasil não mostra tudo em partida de importância

Análise de Marcos Tibúrcio sobre a pergunta que Miami não precisou responder na noite do jogo.

Brasil não mostra tudo em partida de importância

Análise · Marcos Tibúrcio

Havia uma pergunta que Miami não precisou responder, e talvez seja esse o dado mais revelador da noite. O Brasil venceu a Escócia por 3 a 0, garantiu a liderança do grupo e avançou à próxima fase sem nunca, em nenhum momento da partida, parecer que precisava se esticar até o limite. Não foi aquela vitória que esgota. Foi a vitória de quem sabe que tem mais.

Vinicius Júnior e Matheus Cunha marcaram. Dois nomes que carregam histórias distintas mas convergem num mesmo ponto: chegaram a esta Copa como promessas cumpridas, não como apostas. Vini com a brutalidade física do melhor clube do mundo atravessada no corpo, Matheus Cunha com a fome de quem esperou mais tempo do que merecia pela convocação que parecia óbvia. Quando dois jogadores assim encontram a rede, não é só gol — é confirmação de uma narrativa que vinha sendo construída fora do campo há anos.

A Escócia, por sua vez, chegou à Copa do Mundo como símbolo de uma persistência britânica que tem mais valor emocional do que técnico. Ninguém esperava que viesse para ganhar do Brasil. Esperava-se, talvez, que complicasse, que fechasse, que transformasse o jogo numa noite de trabalho duro. Não conseguiu nem isso. Três gols de diferença, em Miami, contra uma seleção que diz não ter mostrado tudo ainda — isso é derrota, mas é também retrato fiel de onde a Escócia está no futebol mundial.

A liderança do grupo, no fundo, é um detalhe administrativo. O que importa é o tom com que o Brasil chega às oitavas.

E o tom é este: uma seleção que joga com alguma leveza, que tem opções no ataque capazes de decidir por caminhos diferentes, e que ainda não precisou mostrar como reage quando o adversário é mais qualificado. Essa é a lacuna real que o torneio ainda não preencheu. Vencer quem pode ser vencido com certa tranquilidade resolve o presente, mas não responde a pergunta que os grandes torneios sempre fazem no momento certo: o que você faz quando o jogo está contra você?

Brasil nas oitavas. Primeiros do grupo. Com Vinicius marcando, Matheus Cunha marcando e uma seleção que, na melhor noite até aqui, ainda guardou alguma coisa no bolso. Isso pode ser sinal de maturidade. Pode ser sinal de que há mais. Pode ser, também, ilusão de um torneio que ainda não mostrou os dentes.

A Copa do Mundo tem esse talento cruel: deixar tudo parecer fácil até que não seja mais.

Marcos Tibúrcio

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil vence Escócia por 3 a 0 e se classifica como primeiro do grupo

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL