Brasil vence 3-0 mas não convence na primeira rodada
Seleção brasileira estreia com vitória convincente, mas análise do desempenho levanta dúvidas sobre o time.
Análise · Marcos Tibúrcio
Três a zero é um placar que mente. Não sobre o resultado — esse, indiscutível —, mas sobre o que aconteceu nos noventa minutos que o produziram. O Brasil venceu a Escócia, garantiu o primeiro lugar do Grupo C e avança ao mata-mata desta Copa do Mundo com o peito estufado de uma equipe que ainda não mostrou, em campo, do que é capaz de verdade.
A Escócia é um adversário honesto. Corre, marca, tenta. Mas chega a esta Copa do Mundo como uma nação que ainda briga com o próprio passado futebolístico — uma história de promessas que a fase de grupos costuma encerrar cedo. Vencer a Escócia por três, portanto, não é prova de grandeza. É obrigação.
O que importa perguntar agora não é sobre o que ficou para trás. É sobre o que vem pela frente. O Brasil entrou no mata-mata desta Copa em 1994 e não saiu sem o troféu. Entrou em 2002 e repetiu o feito. Mas entrou também em 2006, em 2010, em 2014 — e o que restou desses torneios foi, em ordem crescente, decepção, frustração e uma ferida que Belo Horizonte ainda não cicatrizou. Primeiro lugar no grupo é passaporte, não garantia.
O futebol brasileiro tem um vício antigo: confunde a fase de grupos com ensaio geral e o mata-mata com estreia. A conta chega sempre na hora errada.
A classificação em primeiro tem valor tático real. Significa cruzamento mais favorável no caminho inicial do mata-mata, evitar o segundo colocado de outra chave que poderia ser mais perigoso. Esse não é detalhe menor numa Copa do Mundo disputada em três países, com logística e desgaste emocional que pesam tanto quanto o esquema tático. Mas é preciso que o Brasil saiba o que fazer com essa vantagem.
Porque o mata-mata é outra Copa. A partir de agora, não há segundo jogo para consertar o primeiro, não há cálculo de saldo de gols para salvar uma noite ruim. Cada partida é a última partida. E o Brasil — essa seleção que ainda não revelou sua cara definitiva neste torneio — vai precisar decidir, dentro de campo, quem é.
Os três gols contra a Escócia existem. O primeiro lugar existe. O que ainda não existe, e o que esta Copa vai cobrar nas próximas rodadas, é uma identidade. Um modo de jogar que resista à pressão, ao adversário de nível, ao momento em que o placar está zerado e o relógio correndo. Esse Brasil ainda não mostrou que tem resposta para isso.
Talvez tenha. Talvez a gente só vá descobrir quando o jogo começar de verdade.
Marcos Tibúrcio, Esporte — Xaplin
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasil vence Escócia por 3 a 0 e se classifica em primeiro no Grupo C
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL